Alpendre poesia

Dois poemas de Ismar Tirelli Neto

Crimes de Sinonímia

Primeiro a perna direita
Em seguida a esquerda
Depois os padrinhos
O torso o escalpo
A fronte do diálogo fronde
Por aproximação
Depois os ipês, os lençóis
Com que cobríamos os móveis,
Salsa água que encharcava os pés
Dos móveis,
O lustra-móveis, o verniz
Cronológico depois
O mar, eu e o mar reciprocando
Embrulho
Primeiro a náusea, depois os ipês
os pés inchados, grumosos, joelhos dissolvidos
a cantar no convés
Melodias divinais de vai de vêm
A valsa da brita
Círculo propiciatório da voz
Propiciação de colher uma valsa ao que quer que se apresente
Como quem colhe um porto
Eu e o mar reciprocando arrotos
Solavancos tirando salsa água
A inspeção dos dutos
A memória jogando
Melodia como um deus de vai de vêm
A cuna do mundo remodelada
Passa-se adiante o berço da civilização ocidental
Agora está com João Miguel
Na caridade de um leito seco
Baqueiam corações e joelhos
Crimes de sinonímia

*

Tempo com Cecília

Toma-lhe o corpo falar dos barcos que partem
Mar de telha súbito bravio
A cinza onde se desembarca

Toma-lhe o corpo a voz esfumada
O queixo punhal erguido
Reposto no espelho, sem campanada

Toca-lhe o corpo a forma campanário
Deferir primeiro aos mortos, de seguida aos vivos
Por fim, aos indecisos

***

Ismar Tirelli Neto (Rio de Janeiro, 1985) é poeta, ficcionista, tradutor e roteirista cinematográfico. Seu livro de poemas Os Postais Catastróficos figurou entre os semifinalistas do Prêmio Jabuti e nas listas de melhores do ano das revistas 451 e Suplemento Pernambuco (2018). Seu mais recente livro, “adão aparas”, pode ser acessado no link: ismartirellineto.com. Atualmente, reside em São Paulo e ministra oficinas de escrita criativa.

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