Colaboradores Ensaio Glória Damasceno

Achado não é roubado, mas também é procurado

Perder é um dos verbos mais à vista de nossa experiência humana, está sempre no horizonte de nossas escolhas diárias, porque, convenhamos!, engana-se quem ainda pensa que se pode ter tudo, ainda que o dinheiro tente nos convencer do contrário. Perder faz parte do jogo. Perder é um dos verbos mais vividos, e nos ensina muito sobre os outros e nós mesmos, como quando nos deparamos com algo achado, mas também perdido num passado recente ou não. É sobre o achado-perdido que me proponho refletir neste breve ensaio, que também pode ser chamado de vida, porque, ué!, é ensaio, mas tá valendo.

Por falar em valer, quanto custa um gato-fugido-cosplay-do-que-você-aí-tem-na-sua-casa? Um cachorro-sapeca-mistura-de-vira-lata-com-um-unicórnio tá quanto na fila dos achados & perdidos na rua? E uma bolsa com todos os documentos de uma cidadã à beira de ser uma mera indigente, caso a dita-cuja de couro, de pano, de material sintético ou reciclado não seja encontrada tal qual foi esquecida em um dos lugares do itinerário?

Essas são interrogações que ficam ali, nas entrelinhas da oferta de quem perdeu alguma coisa por aí, contudo, não é somente sobre o valor em papel ($) das “coisas” que estamos falando. É também sobre os nossos valores, os valores da cultura em que nos criamos, sobre aquilo que nos define o caráter, sobre o que é ético.

Sobre ética, o escritor, poeta e dramaturgo britânico, Oscar Wilde, já dizia (ao menos a ele foi creditado no país Internet) que: “Chamamos de Ética o conjunto de coisas que as pessoas fazem quando todos estão olhando. O conjunto de coisas que as pessoas fazem quando ninguém está olhando chamamos de caráter”.

Em poucas palavras: ética como aquilo que é “certo” ou “errado”, a ação pensada de buscar fazer o que é justo e o justo nem sempre como a decisão que lhe dá a vantagem de algo, mas às vezes como o que não lhe estufa o bolso.

Disto isto, pergunto: é ético por parte de quem encontrou qualquer objeto perdido aceitar recompensa? Se não houvesse recompensa, ou se o achado fosse de grande valor material, você ainda assim devolveria? O que é vantagem dentro desse contexto (situacional e sobretudo cultural)? Não seria essa recompensa, em geral financeira, fruto de uma moral – costume/hábito de uma sociedade – corrompida? Caso você aceitasse a recompensa, não estaria você não só se corrompendo como também endossando esse hábito moral, porém antiético do meio? Por que para você, seja lá quem você for!, me devolver o que é meu, eu tenho que lhe oferecer alguma coisa minha – de novo – em troca? O fato de eu ter perdido por descuido meu anel de ouro me anula o direito de propriedade? Todas essas perguntas partindo do princípio de que a sua sobrevivência não depende dessa propina.

Me peguei pensando sobre isso dia desses quando uma colega divulgou o apelo de alguém que tinha perdido a carteira como corriqueiramente acontece. A recompensa, dessa vez pouco detalhada, era invariavelmente a palavra carro-chefe da notinha.

Se achado não é roubado, mas achado está sendo procurado, então o que é achado?

Esse ensaio não tem “conclusão”, e essa negativa por si só já é um arremate contraditoriamente!, uma vez que estou ciente da profundidade dos contextos em que esse caso pode ser inserido, e não quero ser injusta. Portanto, há essas perguntas e muita disposição em refletir sobre elas e outros questionamentos que não fiz ainda.

***

Glória Damasceno

.

.

.

Autora de textões, textinhos e 29 anos de dor & glória. Dentre as glorices, a Graduação em Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), o atemporal Vidas Anônimas (blog), e a transformadora Educação Emocional e Social.

Ama um reboliço, um café com leite, a cor vermelha e livros, muitos livros lidos!, decorando a casa!

.

.

1 comentário em “Achado não é roubado, mas também é procurado

  1. Thaís Cardoso

    Ameiiiiii, maravilhosa!

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: