Alpendre poesia

Dois poemas de Raí Prado Morgado

cidade dorme

a cidade reza para que encontre
o mês que mais gosta entre os doze:
o que entre todos te empresta
mais alegria do que as férias

os morros ao fundo da vista
se confundem entre o que seria ilha
continente de terra ou relevo
em tantos séculos moldados pelo vento

(há tempos não se vê as conchas
que às vezes te vêm ao redor
ao lado assim
como quem diz:

o mar existe
a areia existe
o que não existe
é esse receio de errar de novo

o jeito de esquecer as coisas simples)

*

ainda aguardo seu contato

as paredes falam quando é tarde
ouvir calado hoje é disfarce
em cada parte desse bairro
encontro você num detalhe

telefono mudo para evitar a verdade
de te dizer do coração em descarte:
ligações perdidas a cada face
da secretária eletrônica a sofrer espasmos

em toda chamada se repete o mesmo som
a me esquecer a cor do seu batom:
não te digo mas sabe onde estou
quantas partes me compõem num estrago

***

Raí Prado Morgado (Caraguatatuba, 1999) estudou Gestão Ambiental da ESALQ/USP, em Piracicaba. É membro do conselho editorial da revista Mallarmargens, da qual também é responsável pela gestão das redes sociais. Além disso, é o escritor responsável pelo Sob o Silêncio, projeto literário com mais de 50 mil seguidores, e expõe e vende itens artesanais do projeto em eventos culturais pelo estado de São Paulo. Tem poemas publicados nas revistas Subversa, Vício Velho, Mallarmargens, Suplemento Acre, Pixé e Ruído Manifesto, no Brasil, e pelo coletivo MásPoesia, na Argentina.

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