Colaboradores Stéfany Caldas

Quem cuida das emoções dos meninos?

Ilustração: Dika Araújo

Fazer algo pela primeira vez tem das suas delícias. A adrenalina, o seu olhar mais aguçado tentando decodificar cada informação instantânea vivenciada, as reflexões que você começa a fazer consigo mesma a partir disso.
Domingo teve clássico alagoano e teve minha primeira ida ao Estádio Rei Pelé para ver tudo de pertinho. Dentre as diversas coisas que vivi e senti, uma delas me chamou atenção.
Minutos antes de a partida começar, uma filinha de crianças de mãos dadas, liderada por um adulto, cruzava o campo em direção ao vestiário. Elas iriam esperar os atletas para entrar no gramado junto com eles. O auge para cada torcedor mirim. Neste misto de euforia e alegria, de pessoas ainda se acomodando, os funcionários de cada clube que arrumavam os materiais, banners, a imprensa que se preparava para registrar tudo, estavam os torcedores entoando as paródias recheadas de provocações aos seus adversários.
Não precisa conhecer as letras a fundo para saber que essas músicas são repletas de conteúdo machista, homofóbico e agressivo. Olhando de longe as crianças no olho do furacão, naquele que é o lugar mais observado do estádio, eu ficava me perguntando o que passava na cabeça delas naquele instante. Será que se sentiam intimidadas ou com medo? Estariam entendendo o que estava sendo dito? Imaginavam que tudo aquilo era parte do ritual de um jogo que envolvia tamanha rivalidade?
Atrás de mim havia um menino pré-adolescente acompanhado por um homem mais velho. Ele conhecia e repetia entusiasmadamente todas as músicas cantadas pela torcida. E aí me dei conta de que cada homem feito presente naquela arquibancada já havia sido uma criança. E que a gente naturalizou que o ambiente em que eles crescem é mesmo mais hostil que o nosso. Que falar sobre como a gente se sente, ficar triste e ser acolhido é coisa comum entre meninas e suas irmãs e amigas. Eles passam pela adolescência e acreditam que a forma de expressar o que sentem deve ser por meio da força física, do silêncio ou do grito.
Atingem a fase adulta sem conversar sobre diversos assuntos que possivelmente gerem dúvidas pois tudo logo vira um grande tabu sobre sexualidade, virilidade e masculinidade. E aí, todo mundo paga a conta junto.
Isso explica a dificuldade com que eles lidam com as emoções, com as frustrações e com seus relacionamentos amorosos, profissionais e familiares. E explica também o receio que a gente sente de frequentar esses e outros diversos lugares quando desacompanhada.
E tudo começa ali, na infância, quando são apenas garotos aprendendo sobre a dinâmica de uma competição ao lado de seus ídolos do futebol, esse esporte lindo, que emociona, explica a vida e deveria ser uma excelente ferramenta de inclusão e de respeito aos nossos companheiros de jornada.

Ilustração: Dika Araújo

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Stéfany Caldas é formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e Especialista em Assessoria de Comunicação e Marketing pelo Cesmac. É alagoana, feminista e cheia de interesse por esportes, natureza, música e gente!

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