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“Quando eu não tinha nada o que comer, em vez de xingar eu escrevia”: 63 anos sem Carolina de Jesus

Em trecho do livro Quarto de Despejo, Carolina Maria de Jesus, uma das primeiras escritoras negras do Brasil, afirma: “Os políticos sabem que eu sou poetisa. E que o poeta enfrenta a morte quando vê o seu povo oprimido”.

A escritora foi descoberta pelo jornalista Audálio Dantas, e assim teve publicado seu livro Quarto de Despejo – Diário de uma favelada que trata do dia a dia repleto de discriminação de uma mulher negra, mãe, pobre e favelada.

Além disso, o livro é referência para os estudos socioculturais brasileiros e apesar de ter sido publicado em 1960, narra uma realidade infelizmente ainda muito atual.

Com tiragem inicial de 10 mil exemplares, o livro foi publicado em 1960 e se esgotou em uma semana, chegando ao total de cem mil exemplares vendidos, na segunda e terceira edições. Quarto de despejo foi traduzido para treze idiomas e distribuído em mais de quarenta países.

A escritora Carolina de Jesus. Foto: Reprodução

A escritora

Carolina Maria de Jesus nasceu em Sacramento-MG, em 14 de março de 1914. Mudou-se para São Paulo em 1947, junto com seus três filhos – João José de Jesus, José Carlos de Jesus e Vera Eunice de Jesus Lima, na favela do Canindé, zona norte de São Paulo. Como única fonte de renda, vivia de catar papeis, ferros e outros materiais recicláveis nas ruas da cidade.

Leitora voraz de livros e de tudo o que lhe caía nas mãos, logo tomou o hábito de escrever passando a registrar o cotidiano do “quarto de despejo” da capital nos cadernos que recolhia do lixo.

Quando questionada sobre o motivo de escrever, Carolina respondeu: “Quando eu não tinha nada o que comer, em vez de xingar eu escrevia. Tem pessoas que, quando estão nervosas, xingam ou pensam na morte como solução. Eu escrevia o meu diário”.

Em 13 de fevereiro de 1977, a autora faleceu em um pequeno sítio, na periferia de São Paulo.

Biblioteca Carolina de Jesus

O Museu Afro-Brasil, em São Paulo, foi inaugurado em 2004 e sua biblioteca leva o nome de Carolina Maria de Jesus. Localizada no Parque do Ibirapuera, a biblioteca conta um acerco de cerca de 10.000 itens, incluindo livros, revistas e outros tipos de periódicos, teses, posters e material multimídia, e uma coleção especializada em escravidão, tráfico de escravos, abolição da escravatura, da América Latina, Caribe e Estados Unidos. Recebe anualmente aproximadamente 1.200 visitantes.

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