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Museu a céu aberto da cultura afro, Axé Pratagy é inaugurado nesta sexta em Maceió

Resistência. É assim que o babalorixá Pai Célio Rodrigues resume o significado da inauguração do Museu Axé Pratagy, nesta sexta (7).

Primeiro museu a céu aberto da cultura afro, o Axé Pratagy é um espaço religioso, educativo, turístico e cultural. Entre suas ações, além do Afoxé Odô Iyá, propõe-se a ser um ambiente de acolhimento, formação, preservação e manejo as tradições africanas.

Localizado na Comunidade Boca do Rio (Riacho Doce, Maceió-AL), nas imediações da Praia da Sereia, de seus espaços se destacam a Fonte das Iabás, o Espaço da Memória, o Espaço de Ogans e Ekedis e o Espaço em memória a Maria Garanhuns. O Axé Pratagy possui também o Cine Axé, a Biblioteca Maria Garanhuns e uma sala de inclusão digital.

Mesa de abertura da inauguração do Museu Axé Pratagy. Foto: Sousandré

Para dar início a inauguração, num amplo espaço coberto que recebeu os convidados para o lançamento, a mesa de abertura foi composta por Pai Célio Rodrigues, Babá Raminho de Oxossi, Mãe Zeza de Oyá, Babalorixá Jorge de Bessen, Yalorixá Rita De Oxum, Vinícius Palmeira (Presidente da Fundação Municipal de Ação Cultural) e Olivia Tenório (Secretária adjunta do Turismo).

Antes das falas dos integrantes da mesa, a dançarina-intérprete, estudante do curso de licenciatura em Dança pela UFAL e integrante do Afoxé Odô Iyá e Casa de Iemanjá, Lucélia Tayná, realizou a performance de dança Iyá Orí.

Performance de dança de Lucélia Tayná. Foto: Sousandré

Iniciando as falas da mesa de abertura, Vinícius Palmeira, exaltou a iniciativa e afirmou que o Axé Pratagy não é não só um espaço religioso, mas também um espaço cultural importante. O presidente da Fmac também destacou a conexão com a natureza e com aspectos muito próprios da religião de matriz africana.

“Este espaço também se abre para o turismo, pois quem vier nos visitar poderá desfrutar de um espaço que tem todo o simbolismo dessa religião tão importante na formação do povo brasileiro”, pontuou.

Vinícius Palmeira em sua fala durante a inauguração do Museu Axé Pratagy. Foto: Sousandré

Pai Célio Rodrigues, visivelmente emocionado, iniciou afirmando que falar do Axé Pratagy é falar de sua própria vida. Entre poucas pausas, sua voz grave por vezes se mostrava embargada pela emoção.

“Eu li um livro de Mãe Stella de Oxóssi, saudosa Mãe Stella, em que ela dizia: ‘O meu tempo é agora’. Então por isso é que estou escolhendo o meu tempo hoje, inaugurar no mês da resistência negra, que é o mês do quebra. E o meu tempo é agora. Todo esse legado que minha avó deixou, com todo esse carinho que ela me criou… Eu tenho que perpetuar isso. Então meu tempo é agora, como em breve será o de minha filha, que agora está recolhida e tenho certeza que ela vai dar continuidade a esse axé”, emocionando-se ao falar da filha.

De acordo com Pai Célio Rodrigues, a ideia do Axé Pratagy surgiu em 2014, quando ganhou o espaço de um Filho de santo. Durante esses seis anos, o babalorixá comenta que a grande preocupação era fazer uma coisa diferente.

“Nós queríamos um terreiro de candomblé que contasse a nossa história. Daí a gente resolveu montar e fazer o museu a céu aberto. Museu esse que tem como objetivo minimizar os preconceitos, as ideologias negativas em relação às religiões de matrizes africanas”, explica.

Fonte das Iabás. Foto: Sousandré

O espaço, segundo Pai Célio, tem, além de objetivos educativos e religiosos, um viés turístico. “A gente tem que explicar ao turista que nós somos um estado que tem algumas particularidades como, por exemplo: Em estado nenhum aconteceram quatro quebras. Por isso o nosso terreiro era no fundo de quintal. Eu nasci e me criei dentro de terreiro e o terreiro de minha vó era no fundo de um quintal. Eu não entendia. Vim entender depois que fiz História e pude estudar melhor”.

Historiador de formação, ele explica que em Alagoas aconteceram quatro “quebras”: “Nós passamos pelo primeiro quebra em 1695 com a eliminação total dos nossos ancestrais palmarinos, na Serra da Barriga. Em seguida, em 1817, a gente tem outro quebra no qual o nosso polo cultural sai daqui e vai para Pernambuco. Nós tivemos outro quebra em 1912 e o quarto quebra com Getúlio Vargas. Então esses quebras todos levaram o nosso terreiro ser diferenciado de outros estados”, pontua Pai Célio.

Herdeiro da Casa de Iemanjá, fundada no final da década de 40, por sua avó, Maria Garanhuns; o babalorixá relata, ainda, sua tristeza em quando ao viajar a Bahia e observar uma imensidão de terreiros dentro de sítio, de uma chácara. “Por que nós não podemos ter? Nós podemos, sim. Terreiro é axé, terreiro é força, terreiro é vida, terreiro é água, terreiro é sol, terreiro é mar”.

Sobre a estrutura do museu, Pai Célio ressalta as duas partes principais: A primeira fica a céu aberto e conjuga árvores e demais plantas sagradas, como Baobá, Jaqueira, Mangueira, Tamarindo, Obi, Canela, Orobô, Imbé; cada uma legenda indicando seu respectivo nome e representatividade para o candomblé em placas de metal; com as casas Exu, Ogum e Oxossi, Oxum, Iemanjá, Oxalá, Nanã, Obaluaiê e Bessem, Iansã, Xangô, Iemanjá e o Sabagi.

Cada uma tem uma pintura de Salles Tenório e uma escultura que retrata e simboliza o orixá.

Na segunda parte, ainda em construção, haverá um espaço fechado e que irá abrigar sua coleção pessoal de materiais e peças, como também a biblioteca do axé, que contará com acervo de livros sobre matrizes africanas.

“Por exemplo, nós temos quase todos os livros de Pierre Verger. E isso precisa ser divulgado para as pessoas, não é? Isso precisa ser disseminado. Eu não quero o saber pra mim. Eu quero disseminar. É importante, é de suma importância a gente compreender essa evolutiva da nossa religiosidade e também os tantos porquês de várias coisas”, ressalta.

Perguntado sobre os dias e horários de visitação, Pai Célio informa que, inicialmente, a visitação será de realizada mediante agendamento. “Estamos nesse período de transição entre a Ponta da Terra e aqui. Então eu acredito que a partir de março, abril, nós já teremos horários definidos para a visitação”.

Lucélia Tayná em sua performance de dança na inauguração do Museu Axé Pratagy.
Foto: Sousandré

Para a dançarina-intérprete, Lucélia Tayná, a inaguração do Axé Pratagy tem uma forte emoção como significado. “Acho que desde o dia primeiro de janeiro a gente começa a chorar com mais força, com mais frequência, porque a gente já começa a estar aqui todos os dias para realizar todo esse evento que acontece hoje, amanhã e domingo”, comenta.

Sobre a expectativa para os dias seguintes de inauguração, Lucélia afirma que a ansiedade maior é para o dia do toque, amanhã (8), em que ocorrerá uma grande cerimônia religiosa.

Iniciada no Candomblé há quatro anos, ela destaca que são esperadas cerca de quinhentas pessoas, entre religiosos do Brasil e mesmo de países como Estados Unidos, Itália e Portugal.

Convidados da inauguração do Museu Axé Pratagy. Foto: Sousandré

“A gente já tem aqui em Maceió pessoas dos Estados Unidos, que são filhos da casa. Pessoas de Portugal, pessoas do Rio de Janeiro, de Rondônia, da Paraíba… então a gente está aguardando pessoas de todos os estados. A expectativa maior é para o dia do toque. Todo mundo quer ver a grande mãe, a grande matriarca de todos, Iemanjá”.

No sábado o lançamento do Museu Axé Pratagy tem prosseguimento com Cerimônia Religiosa guiada por Pai Célio, a partir das 14h. No domingo o Museu recebe apresentações culturais, com Maracatu Alagoano, Sambalelê e Afro Zumbi.

As atividades serão gratuitas e abertas ao público.

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