Entrevista lide liquido

Padê: Uma entrevista com Juçara Marçal e Kiko Dinucci

“Abre o caminho, o sentinela está na porta // Abre o caminho pro mensageiro passar…”.

“Padê” foi a música de abertura do show de Juçara Marçal e Kiko Dinucci na noite dessa quarta-feira (5), no Teatro de Arena Sérgio Cardoso, em Maceió.

Em 2020, o disco homônimo completa 12 anos de lançamento e constitui o marco do início da parceria entre os dois artistas.

Logo após a passagem de som o blog Arribação entrevistou Juçara Marçal e Kiko Dinucci. Confira o que eles falaram sobre início da parceria, influências musicais e artísticas, expectativas para a apresentação em Maceió e muito mais.


O disco “Padê” foi o que marcou o início da parceria entre vocês. Vocês imaginavam que esse disco fosse o ponto de partida para uma parceria tão frutífera e tão longa entre vocês?

Juçara – A gente nunca mede quando as coisas começam. Quando aconteceu, percebemos logo de início que havia uma afinidade estética entre nós. As coisas que eu imaginava pra arranjo de canção, ele fazia alguma coisa no violão que era bem o que eu estava imaginando. Várias coisas que a gente foi experimentando no primeiro show, era muito fluído, tudo corria facilmente por conta dessa afinidade, então a gente imaginava que a coisa ia render, mas a medida disso que é virar o “Metá Metá” e tantas outras coisas, só fomos experimentando à medida que foi surgindo.

Durante entrevista, os músicos falam sobre início da carreira e inspirações . Foto: Sousandré

Kiko – A dimensão a gente nunca teve e continua não tendo. Será que a gente vai ser esquecido, consagrado? É sempre convivendo com essa angústia. Mas a certeza que eu particularmente tive é que eu tinha encontrado uma pessoa com muita afinidade, que gostava de muita coisa que eu gostava. Tínhamos uma visão da música muito próxima e a gente se divertia e isso é o que une a gente até hoje. Eu faço parte dos discos da Juçara e ela faz parte dos meus discos. Gostamos muito de trabalhar juntos e temos uma amizade muito próxima.

Quais as expectativas de vocês para esse primeiro show em Maceió?

Kiko – Rola aquela história de jogar a garrafinha no mar e alguém pegar. A internet é um pouco isso no bom e no mau sentido e é sempre especial a gente tocar num lugar que não tocou ainda e encontrar público. O pessoal que conhece as músicas, que quer saber, que quer conversar depois dos show. Pessoas interessadas, concentradas. Sempre ficamos pensando que é mais um lugar pra gente voltar. Sempre estamos desbravando, vivemos num país sem muito apoio cultural, então muito desbravamento parte da gente mesmo. No caso daqui foi uma produtora local, a Bárbara. É sempre importante achar essas pessoas nas cidades. Continuar se ligando a essas pessoas.

Quais os aspectos que mais influenciam vocês durante o processo criativo? É só a música ou tem outras linguagens artísticas?

Juçara – Todas as artes aparecem. Adoro cinema, literatura… já fiz Letras. Esse meu prazer com as outras artes aparece na minha música, assim como as coisas que vivencio na vida aparecem na música. Por isso a religiosidade está presente. Faz parte da vida, né? Então quando você vai fazer música, essas referências, isso que te dá prazer, que te faz andar aparece no que você constrói musicalmente.

Artistas falam sobre suas expectativas para o show em Maceió. Foto: Sousandré

Kiko – Tem a ver com vivência. A música não está só no universo musical, ela vai buscar no cinema, na literatura, nos chãos da vida, nas amizades, nas pessoas que a gente encontra. Tudo isso influencia a gente de alguma maneira.

Como vocês percebem o engajamento político na arte nos dias atuais?

KikoA arte já é por si só um engajamento, ninguém precisa fazer arte panfletária ou ser tão direto. Ou também você pode ser um artista que fale diretamente de temas políticos, mas existem coisas que são mais subjetivas que causam mais efeito. Isso fica muito claro no momento em que Gil e Caetano foram presos de 68 pra 69, que a Tropicália não era direta, mas ela propunha alguma explosão cultural que tava escondida e isso se tornou perigoso, que ia desde o cabelo comprido, ao corpo raquítico que rebolava, era uma coisa audaciosa pra regime militar. Então acredito que a arte, o fato dela existir e se manifestar, ela já é uma afronta ao estado autoritário.

Foto: Sousandré

Recentemente, a secretária de cultura, Regina Duarte, lançou aos seus seguidores nas redes sociais, a seguinte pergunta: “O que é cultura?”. Como vocês responderiam?

Juçara Vou responder a ela não (risos).

Kiko – É uma questão muito ampla. Cultura pode ser tudo, pode ser o que você come, o que você fala, o que você vive, o que você é… seus valores. É a alma da pessoa. Cultura não tem a ver com centros acadêmicos ou livros. Cultura é desenvolver seus métodos de se manifestar na vida de maneira natural, por isso o Brasil é rico. Brasil já consolidou tantos modelos culturais, alguns ruins, alguns terríveis, outros maravilhosos e a gente convive com isso na nossa cultura. O Brasil que a gente gosta é esse Brasil do Luiz Gonzaga, da Clementina de Jesus, do Dorival Caymmi… um Brasil majestoso. Mas isso é só uma parte. Não posso transformar o Brasil todo nisso.

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