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XX edição da Lavagem do Bonfim celebra a tolerância religiosa

No último domingo (12) ocorreu em Maceió-AL a XX Lavagem do Bonfim. O evento ocorreu no final da tarde na Igreja Matriz do Nosso Senhor do Bonfim, no bairro do Poço.

Pedindo paz, proteção e dizendo não a intolerância religiosa (tema deste ano), coletivos culturais e mais de trinta casas religiosas se envolveram diretamente no evento. Participantes de Maceió, Massagueira e Cajueiro estiveram presentes.

O cortejo foi iniciado no Largo São joão, na ladeira do bairro Jacintinho. Na concentração foram entoados cânticos para Exu, com uma performance realizada por grupos culturais.

Paralelo ao cortejo que descia a ladeira do Jacintinho, o grupo Maracatu Baque Alagoano realizou uma apresentação no pátio da Igreja Matriz do Nosso do Senhor do Bonfim, convocando a comunidade do entorno e recepcionando os demais participantes, que chegavam vestidos de branco, com adornos, miçangas e turbantes.

Maracatu Baque Alagoano. Foto: Sousandré.

A cerimônia foi iniciada com a chegada do cortejo, que lotou o pátio e os arredores da Igreja. Em palco montado no pátio ocorreu a cerimônia e teve como frente de honra Pai Célio, Mãe Mirian, Paulo Silva (presidente da Federação Zeladora das Religiões Tradicionais Afro-Brasileiras em Alagoas), Alberto Jorge (Presidente da Comissão de Defesa da Igualdade Social, da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) seccional Alagoas), Vinicius Palmeira (Presidente da Fundação Municipal de Ação Cultural), Jadilson Campos (representando a Rede alagoana de comunidades de terreiro) e Dalisson de Oxalá (Juventude de Terreiro de Alagoas).

Frente de honra da XX Lavagem do Bonfim. Foto: Sousandré

Após as falas de cada integrante da frente de honra ocorreu, entre cânticos para Oxalá, uma revoada de pombos. Pedindo uma salva de palmas para os presentes, Pai Célio anunciou uma queima de fogos e, em seguida, se encaminhou para um dos momentos mais aguardados, a lavagem do pátio da Igreja Matriz do Nosso Senhor do Bonfim.

Os participantes seguiram em cortejo pelas ruas do bairro até a Casa de Iemanjá, localizada atualmente no bairro da Ponta da Terra.

Segundo Amaurício de Jesus, Diretor de Produção do evento desde o ano de 2000 e membro da Casa de Iemanjá, a Lavagem do Bonfim é uma ação voluntária e que tem dado muito certo. “Tem sido muito bacana, principalmente quando a gente consegue engajar grupos de vários olhares, de vários intenções e que conseguem juntos fazer um cortejo cantando para oxalá, junto com as casas, atendendo a convocatória casas religiosas”.

Cortejo após a cerimônia. Foto: Sousandré

Fazendo um balanço dos vinte anos do evento, ele reflete sobre as dificuldades encontradas. “Quando a gente iniciou há vinte anos e começou a convidar as casas, as pessoas perguntavam: ‘Vocês vão pra rua usar miçanga e o torso?’. Então a gente vinha de uma resistência bem inquieta, bem interna. E nesses vinte anos o que a gente percebe é o envolvimento. A juventude se aproxima, os grupos culturais se aproximam. Você consegue ver as pessoas circularem com as suas miçangas, com os seus colares, com os seus adornos de cabeça. Então para nós é essa resistência que se reconfigura e hoje a gente consegue ver a comunidade de terreiro sair a rua sem medo”, ressalta.

Sobre a importância do evento, Amaurício de Jesus, que faz parte da Rede de Comunidades Tradicionais de Terreiros em Alagoas, pontua que se trata de uma reconfiguração de resistência. “A forma como o empoderamento das comunidades, das pessoas que são da religiosidade dizer: ‘eu vou a rua, eu vou sair com a minha miçanga, eu vou colocar o meu torso, e eu vou fazer um cortejo dizendo não a intolerância'”.

Aumento dos casos de Intolerância religiosa

Em 13 de maio 2019 ocorreu a invasão e quebra do terreiro da yalorixá Veronildes Rodrigues, a Mãe Vera, no bairro Cidade Universitária, na parte alta de Maceió. Objetos e oferendas foram destruídos durante a madrugada.

De acordo com Paulo Silva, presidente da Federação Zeladora das Religiões Tradicionais Afro-Brasileiras em Alagoas, por ano cerca de 20 casos de intolerância religiosa são registrados no estado.


Casa de yalorixá foi alvo de ataque em maio de 2019, em Maceió | Arquivo/Ascom Semudh

Disque 100

Divulgado pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH) em 13 de junho de 2019, o balanço referente às denúncias de discriminação religiosa aponta 506 casos registrados no Disque 100 (Disque Direitos Humanos) durante o ano 2018.

Entre os segmentos mais atingidos estão umbanda (72), candomblé (47), testemunhas de Jeová (31), matrizes africanas (28) e alguns segmentos evangélicos (23).

Em 2017, dados do então Ministério dos Direitos Humanos (atual Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos) revelavam que o Brasil, entre 2011 e 2015 tinha uma denúncia de intolerância religiosa a cada 15 horas.

Os dados do MDH mostravam que a maioria das vítimas era de religiões de origem africana, com 39% das denúncias.

As formas de manifestação da intolerância podem ser variáveis, indo de atitudes preconceituosas, passando por ofensas à liberdade de expressão da fé, até as manifestações de força contra minorias religiosas.

A Constituição Federal Brasileira assegura o direito à liberdade religiosa, compreendendo assim que a liberdade de escolher, viver e cultuar ou não uma religião compõe o núcleo de direitos que garantem uma vida digna a cada cidadã ou cidadão brasileiro e, por isso, tais direitos devem ser tratados com igual importância e consideração frente aos demais direitos, justificando ainda mais a necessidade de reparação quando violados.

Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa

No dia 21 de janeiro é celebrado o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. A data foi criada por intermédio da Lei nº 11.635, de 27 de dezembro de 2007.

No Brasil a intolerância religiosa é considerada crime previsto no artigo 20 da lei nº 7.716/89. Portanto, praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito em razão da religião é um fato que pode levar o infrator a cumprir pena de reclusão de 1 a 3 anos, além de multa.

A data foi instituída em homenagem à Mãe Gilda, Iyalorixá que foi vítima de intolerância religiosa no fim de 1999. No mês de outubro do corrente ano, Mãe Gilda teve seu templo invadido, depredado e o seu marido agredido.

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