Alpendre poesia

Dois poemas de Marco Aurélio de Souza

My dear friend – um poema para Djami Sezostre

My dear friend Djami, informo-lhe que ontem
Recebi o seu livro, devorando-o no mesmo instante.
Receio, porém, não ter nele encontrado qualquer
Vestígio de poema, ao que lhe dou notícia por supor
Tratar-se de algum equívoco ou mistake. Sim,
É o que lhe digo, não encontrei em seu livro qualquer
Lírio ou conhaque juvenil, sequer a virgindade de um
Pôr do sol no fim da linha: tudo se passa
Como se o autor destes riscos estivesse
Meio crazy meio mad meio caído
Em cânticos e rezas vazadas em um mix
De barbarismos antigos, que certamente fariam
Muito sentido em Pentecostes, mas não aqui,
Em nosso clube de odes à beleza da forma sadia.
Assim, devolvo suas obras completas, mistery Djami,
Para que corrija esta falha com a língua
– Pois em seu livro sequer existe uma língua
E cá em meu país falamos português com
Correção, assim como se escreve às gramáticas.
Admitimos certos estrangeirismos, off course,
Mas nunca aqueles que se gestam dentro da própria
Nação, ao que lhe censuro a tendência promíscua
Pedindo encarecidamente que, em nova remessa,
Escreva-me sem fazer uso de suas próprias palavras.
Elas são suas e, como seu corpo – que neste compêndio
De elementos naturais (selvagens mesmo, eu diria),
O amigo também expôs de forma assaz indevida –,
Guarde-as para quando estiver ao chuveiro ou sozinho
Com parceirx(s) íntimx(s) que lhe deseje(m) a nudez.
Sem mais para o momento, confesso-lhe, contudo,
Que os arranhões feitos em mim por sua obra
Certamente não foram de todo o mal, e seu invólucro
De saliva aliviou-me a sede por dentro, ao que lhe peço,
Por justiça à consciência, que em sua resposta me envie
Mais destas letras cujo acento jorrando em nosso rosto
Causam este estranho fascínio ou efeito afrodisíaco
Na pressão – em que pese ausente de poemas,
O seu livro lambuzou-me nalguma forma de prazer
Desconhecido, não sei se mineral, vegetal, animal
Ou humano, mas desconfio deva ser a sensação
Daquele que mira a vulva hipnótica da Mãe Gaya
– a rainbow rising on my body, like a dream.

Uma mulher vencida

Um quarto escuro
É somente um quarto escuro.
Uma mulher vencida, porém,
Perde-se num quarto escuro
Como se este não fosse
Apenas um espaço vazio
De onde se vai e se vem.

Uma cama, por conseguinte,
Nunca é mais que uma cama
Quando nela não se deitam
As dores de uma mulher vencida

À carne rija se funde o colchão
Que perde sua função primeira
Como ponto de descanso ou prazer.

Mesmo um mísero cigarro, veja bem,
É nada mais que um cigarro,
Desde que aceso pelo lado correto
Da vida –
Do contrário,
Será preciso um pelotão inteiro
Do corpo de bombeiros
Para fazê-lo repousar sob as cinzas
De uma mulher que fuma
Cansada & vencida.

De modo que um quarto, assim,
É somente um quarto
Com uma cama dentro
Onde uma mulher sozinha
Fuma um cigarro que nunca se apaga.

Uma mulher vencida, porém,
Será sempre mais
Que somente uma mulher vencida
: nela existe uma centelha
Capaz de incendiar o mundo inteiro
(O quarto a cama o colchão o cigarro)
Como um farol de nervos a iluminar
A escuridão de todos os que também
Estão cansados & vencidos
E nada podem a não ser
Seguir em frente
E nada podem a não ser
Continuar.

***

Marco Aurélio de Souza é autor de cinco livros, com destaque para os poemas de Anjo Voraz (Benfazeja, 2018) e os contos de Os touros de Basã (Kotter, 2019). Participa de diversas antologias e já publicou em periódicos como o Relevo, Subversa e Mallarmargens. É autor da página O Pulso – decálogos sobre a poesia viva e editor no selo Olaria Cartonera. Atua como professor na rede pública do Paraná e é doutorando em Estudos Literários pela UFPR. Vive em Ponta Grossa/PR.

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