Alpendre poesia

Dois poemas de Marcus Cardoso

descreve meu beijo você disse
enquanto beijo era o nome do total do universo
que minha existência conseguia se agarrar
naquele momento e naquele exato
momento eu só conseguia

pensar que eu queria ser um poeta decente
que decora versos pra roubar uma frase
de algum poeta melhor e te falar e ter certeza
que o que saiu foi gostoso de se ouvir

pensar naquela vez em que senti
seu cheiro aqui em mim
e que atribuí aquele momento-memória
à posição do meu braço e depois disso
tento até hoje refazer aquela posição
sem sucesso algum

pensar que eu tô escrevendo um poema épico
faz tempo na minha cabeça
sobre a imagem que guardei
no bolso da lembrança
do seu corpo jogado pra trás enquanto gozava
enquanto eu filmolhava você de baixo
e eu só pude prestar o máximo de atenção
que eu conseguia
pra tentar não esquecer daquela cena jamais
pra tentar roubar aquele sorriso angular que você deu
quando voltou com a cabeça pra frente
e me olhou fundo com sua ardência árabe

pensar que esse pedido naquela hora safada daria um bom
poema e que eu queria que começasse com
“beijo os lábios dela com a mesma intensidade
que beijo a boca dela”

pensar que eu tenho uma série de coisas
que queria te falar mas não sei se devo
que devia te falar mas não seu se quero
mas o que mais me deixa confuso é que
eu não sei mais se te escrevo poemas
ou recados

*

no estômago as borboletas
já nascem borboletas

devoram doce cada dentro nosso
borbulham rasante suas asas pelas
paredes ácidas da flora intestinal

sobrevivem heróicas às
macarronadas familiares de domingo
engolindo sapos piores inimigos

resistem à tristeza estratosférica
dos dias longe

quando percebem a morte
sobem marejadas até
perturbarem um imenso céu de sono
e se despindo se despedem

acordamos aflitos e com lagartas no estômago

***

Marcus Cardoso é poeta, músico, historiador e mestrando em literatura portuguesa pela USP. Vivente na cidade de Ribeirão Pires, lançou as plaquetes todo poeta mente sinceramente (2016) e palimpsesto, eu (2018): ambas de modo independente. Tem poemas publicados nas revistas Vício Velho, Ruído Manifesto, A Bacana e no Mural da Kotter Editorial. Escreve, semanalmente, ensaios-prosas-poéticas que teimam em ser chamadas de resenha, para o site FolkdaWorld e para o blog Trama. É cantautor no projeto reticente. Segue buscando maneiras diversas de atravessar o múltiplo subúrbio da palavra.

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