Entrevista lide liquido

Veganismo, Filosofia e Especismo: Uma entrevista com Renato Libardi Bittencourt

O veganismo, segundo a Vegan Society, da Inglaterra, é um modo de vida que procura excluir, na medida do possível e do praticável, todas as formas de exploração e de crueldade contra animais, seja para a alimentação, para o vestuário ou para qualquer outra finalidade. Dos veganos junk food aos veganos crudívoros – e todos mais entre eles – há uma versão do veganismo para todos os gostos.

Os veganos, de maneira geral, criticam o Especismo, que é a ideia de que o ser humano é superior às outras espécies de animais, o que leva aos maus tratos a eles, incluindo as diversas formas de exploração e crueldade.

Para o Professor de Filosofia Renato Libardi Bittencourt, algumas áreas da cultura são coniventes com o especismo, seja na ausência de problematização e aprofundamento, seja mesmo na fundamentação teórica do especismo. Em entrevista ao Arribação, Renato comenta que, embora a reflexão acerca dos animais exista na antiguidade desde o filósofo e matemático Pitágoras, ela nunca teve um verdadeiro destaque na Filosofia. O tema só começou a se tornar mais conhecido, divulgado e sistematicamente estudado a partir da contemporaneidade, através de personalidades acadêmicas como Peter Singer, Tom Regan, Gary Francione, Carol J. Adams, Melanie Joy, entre outros nomes.

Renato, que é ativista dos direitos dos animais e membro dos movimentos “269 Life Nordeste” e “Vozes em Luto Nordeste”, indica que a Filosofia tem sido conivente com o especismo, argumentando que a omissão com a reflexão ética sobre ao animais já é uma forma de colaborar com o Especismo.


Confira a entrevista completa a seguir:


O veganismo é uma utopia?

Definitivamente não. Muitos ideais revolucionários considerados utópicos no início demonstraram a veracidade da máxima de Heráclito: “Tudo flui, tudo está em constante movimento e mudança”. O veganismo não é um sonho solitário, é uma prática concreta partilhada por milhares de pessoas ao redor do nosso planeta. Obviamente qualquer vegano consciente sabe das inúmeras dificuldades para lutar contra o paradigma do Especismo, mas entendemos que essa luta é um “trabalho de formigas”. Imagine, por exemplo, a frustração de um indivíduo consciente dos horrores do sistema escravocrata, lutar pela abolição da escravatura logo no começo do período colonialista. Muitas pessoas lutaram seriamente por seus ideais éticos, mesmo sabendo que talvez nunca chegassem a vê-lo concretizados.

Por que você optou pelo veganismo?

Eu não poderia me considerar verdadeiramente antifascista sem a adesão ao veganismo. Meus valores éticos sempre foram voltados para a justiça, a compaixão, a solidariedade, empatia, amor, entre outros valores similares. O grande problema era que meus valores eram sufocados por minha postura especista antes de conhecer o veganismo. Uma vez que conheci de perto o veganismo e vi todos os horrores que os animais sofrem antes e durante o abate, não poderia mais dormir com a consciência tranquila a não ser parando de contribuir com um verdadeiro holocausto que assassina trilhões de vidas por ano apenas para satisfazer o insano paladar humano. Como eu poderia lutar por um mundo de paz, sem opressão e violência colaborando com tantos horrores impostos aos animais pela supremacia humana? Como eu poderia ser realmente antifascista praticando a violência especista? Meus valores agora estão de acordo com minhas ações e comportamento, dessa forma desfruto do meu livre-arbítrio e de uma felicidade genuína.

Renato durante a Marcha pelo Dia Mundial do Veganismo em Recife (PE). Foto: Ivan Dourado.

Quais são os maiores entraves que, de maneira geral, as pessoas apresentam para não optarem pelo veganismo?

O primeiro entrave, em minha opinião, é o psicológico. Segundo Melanie Joy, Ph.D. em Psicologia Social, nós negamos a realidade. Obviamente que qualquer ser humano que tenha saído da infância sabe que para comer carne ou usar produtos de origem animal temos que matar ou explorar suas vidas. Criamos mentalmente todos os tipos inimagináveis de justificativas para continuar a vivenciar o conforto dos nossos hábitos tão enraizados desde a nossa infância. Obviamente a falta de informação sobre a condição real dos animais (mascarada pelas propagandas de vacas, galinhas e porcos “felizes”) é um problema, assim como a falta de informações (incluindo no sistema educacional) sobre o veganismo, porém inúmeras pessoas informadas e com alto grau de escolaridade simplesmente criam mil bloqueios mentais para não admitir suas próprias contradições, sua própria condição de opressor. Sempre preferimos pensar que nós somos sempre os oprimidos por um sistema que impõe as regras de fora pra dentro de nós. É horrível acordar e perceber que somos nazistas diante dos olhos dos animais. Isso fere nossa frágil consciência. Outro grande entrave são as pessoas que se utilizam do veganismo para lucrar, criando assim um novo “nicho” de mercado consumidor, elitizando o consumo e afastando a periferia do acesso ao veganismo. Os grupos bem-estaristas como a SVB (Sociedade Vegetariana Brasileira), a Mercy for Animals e a Animal Equality são grandes exemplos de como o veganismo está sendo cooptado pelo mercado e pelo capitalismo (veja, por exemplo, o selo “vegano” da SVB em produtos de marcas reconhecidas internacionalmente por fazerem testes e explorarem animais, como é o caso da Unilever).

Foto: Ivan Dourado

Como o especismo se liga a outros tipos de discriminação arbitrária, como racismo e machismo?

As mulheres e os negros deveriam ser os primeiros a perceber essa ligação direta. Racismo e Machismo são teorias supremacistas, ou seja, tentam justificar suas atitudes e tratamentos dirigidos à outros indivíduos baseados em uma suposta “superioridade”. Assim como o homem não é superior a mulher, nem os brancos em relação aos negros, os seres humanos também não são superiores aos animais. O argumento de que nossa racionalidade nos torna superiores é uma falácia (demonstrada muito bem pelo filósofo Peter Singer em “Libertação Animal”), pois nem todos os seres humanos são dotados de racionalidade, como é o caso de bebês e de pessoas com deficiência intelectual irreversível. A pergunta que deveria nortear o debate ético em relação ao tratamento dado aos animais é: “assim como nós, eles também tem a capacidade de sentir, de sofrer, ter medo, dor, felicidade, estresse”? Todas essas teorias supremacistas são igualmente utilizadas para justificar projetos de dominação e privilégios, seja no campo da economia, da política ou mesmo da moral. Todas essas teorias supremacistas, de algum modo, apenas justificam a violência e a imoralidade de atos injustificáveis.

Como a grande mídia contribui com especismo?

De várias maneiras. Para a massa da população, a grande mídia é responsável por formar opiniões e induzir comportamentos a partir de uma estratégia do privilégio daqueles que detém o poder, sobretudo o poder da informação e do poder econômico. Filmes, programas culinários, propaganda de todo tipo de produto que explora direta ou indiretamente os animais são comuns na programação das grandes mídias. O veganismo é diverso, porém a sua vertente politizada e consciente é notavelmente contrária aos ditames do sistema financeiro e político que vigoram, logo, não será essa a face mostrada pela grande mídia sobre a luta contra o Especismo, provavelmente só continuarão mostrando feirinhas culinárias e “opções veganas” para uma alimentação saudável (reduzindo o veganismo a uma mera dieta ou “Lifestyle”).

As religiões também tem algum papel nisso?

Quando a consciência tenta se agarrar a qualquer tipo de justificativa para encobrir o fato que violentamos animais sem qualquer necessidade ou razão, a religião e a metafísica podem atuar sim como aliadas nesse processo de alienação mental (e moral). Mas não é um fato unânime a religião compactuar com o Especismo. Temos exemplos de religiões orientais como o Jainismo, algumas vertentes do Budismo, do Sufismo (mística islâmica), Hare Krishnas, entre outras vertentes que estimulam uma ética e uma conduta não especista. Creio ser uma enorme e vergonhosa contradição as religiões semíticas (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo) propagarem a máxima: “Não matarás” e apoiarem sistematicamente a violência contra os animais. A religião deveria promover uma consciência e uma ética fundadas na paz e na compaixão, mas, infelizmente as religiões são tão humanas como quaisquer outros aspectos de nossas vidas.

Marcha pelo Dia Mundial do Veganismo em Recife (PE). Foto: Ivan Dourado.

O veganismo chega até a periferia?

O veganismo Abolicionista (politizado e sério) chega sim! Infelizmente a maior parte dos grupos denominados veganos aqui no Brasil são bem-estaristas e elitistas (é o caso exemplar da SVB), acabando por afastar a massa da população da nossa causa. Economicamente o veganismo é a forma mais barata e sustentável de se viver e de consumir, é só refletir sobre o que pesa mais na hora de pagar a conta da feira (certamente não serão os vegetais e legumes, mas sim a carne e os laticínios). É possível fazer receitas fantásticas com cascas de banana, por exemplo, o que é ignorado por muitos. Existem grupos e iniciativas muito sérias que estão divulgando o veganismo nas periferias e bairros mais carentes, mas isso ainda caminha a passos lentos, pois muitos veganos ignoram a importância do ativismo de rua e as lutas interseccionais como as lutas por moradia digna, reforma agrária, combate às desigualdades sociais, feminismo, questões LGBTS, racismo, entre outras causas igualmente importantes.

Existe veganismo sem ativismo político?

Sinceramente, não! Afinal o verdadeiro veganismo é, em si mesmo, um ato político. Veganismo não é dieta, nem um “Lifestyle” para blogueiros se auto promoverem nas redes sociais. Precisamos entender que existem duas correntes diametralmente opostas dentro do veganismo: o Veganismo Abolicionista (politizado) e o que “carinhosamente” denomino de “Vegourmet” (“veganos” que compactuam com a exploração animal quando: a) afastam a massa da população elitizando o veganismo; b) quando se aliam a empresas que exploram os animais alegando ser “estratégico” e c) quando deixam de ir as ruas e de atuarem diretamente pelos animais, dando a entender que o veganismo é só uma dieta ou estilo de vida).

Marcha pelo Dia Mundial do Veganismo em Recife (PE). Foto: Ivan Dourado.

Quais filmes você indica para quem pretende se tornar vegano ou mesmo para quem tem a intenção de entender um pouco mais sobre o assunto?

Indico os Documentários: “Dominion”, “Terráqueos”, “Behind the Mask”, “A Carne é Fraca”, “Cowspiracy” e “What the Health”. Dos filmes, indico: “Okja”, “Bold Native”, “ALF: Animal Liberation Front” e o clássico da seção da tarde “Babe: o porquinho atrapalhado”. Todos têm versões legendadas ou dubladas e podem ser facilmente encontrados no Youtube, Netflix e outras plataformas. Aproveito para indicar as páginas dos movimentos onde milito: @269lifenordeste e @vozesemluto.nordeste.

Peter Singer, Melanie Joy, Tom Regan e Gary L. Francione

Você tem a percepção de que poucos filósofos e filósofas problematizam e aprofundam o tema do especismo?

Sim. A reflexão acerca dos animais existe desde a antiguidade com Pitágoras, mas nunca teve destaque ou expressividade dentro da filosofia. Notavelmente o tema só começou a se tornar mais conhecido, divulgado e sistematicamente estudado a partir da contemporaneidade, através de personalidades acadêmicas como Peter Singer, Tom Regan, Gary Francione, Carol J. Adams, Melanie Joy, entre outros nomes.

A Filosofia tem sido conivente com o especismo?

Certamente. Muitos filósofos como Aristóteles, São Tomás de Aquino e Descartes foram decisivos para a construção social e teórica sobre os direitos dos animais. A própria ausência e omissão da filosofia com a reflexão ética sobre ao animais já é uma forma de colaborar com o Especismo. Acredito que a filosofia tem uma dívida histórica enorme com os animais. Na antiguidade se argumentava através da própria filosofia a irracionalidade dos animais que justificaria sua “inferioridade” e o direito de dominá-los. No período medieval, teólogos e filósofos argumentavam que os animais não possuíam alma e que as escrituras sagradas permitiam o ser humano dispor da vida dos animais. Na modernidade Descartes, com o advento da corrente mecanicista, argumentava igualmente que os animais não possuíam alma e que, por esse motivo, não podiam realmente sofrer ou sentir dor, o que impulsionou a prática de experimentos insanos e cruéis com animais sem sedação ou anestesia (vivissecção). A história da filosofia nunca foi justa com esses seres inocentes.

Talvez o filósofo mais conhecido sobre discutir acerca dessa temática seja Peter Singer. Quais outros pensadores contemporâneos você indica para um maior aprofundamento sobre o assunto?

Indico três grandes nomes nessa área: a Melanie Joy, o Tom Regan e o Gary L. Francione (esses dois últimos, inclusive, possuem críticas fantásticas e muito bem colocadas ao Peter Singer).

Você desenvolve alguma pesquisa acerca do tema?

Sim. Atualmente estou orientando um Projeto de Pesquisa lá no Instituto Federal de Alagoas que busca demonstrar que o Especismo, o Machismo e o Racismo são moralmente equivalentes, igualmente violentos e que possuem a mesma lógica e a mesma fundamentação: o sentimento supremacista que justifica a dominação e a violência, tanto no campo das ideias quanto, principalmente, no campo da prática. A orientanda é uma estudante vegetariana do primeiro ano e foi escolhida a dedo por ter um grande sonho: se tornar vegana. Acredito que a Educação, assim como a filosofia e a ciência, tem uma grande dívida com os animais e que uma Cultura de Paz, um mundo mais justo e digno, não violento, começa com uma educação Antiespecista.

1 comentário em “Veganismo, Filosofia e Especismo: Uma entrevista com Renato Libardi Bittencourt

  1. Daniel Santos

    Excelentíssima entrevista! Precisamos que todos tenham acesso esse conhecimento, assim aumentariamos muito o numero de vegetarianxs e veganxs. Creio que essa problematização da sociedade que embasa o movimento de libertação animal abre a possibilidade para uma leitura muito mais crítica da sociedade. Por isso, devemos levar esse tema para as escolas, universidades e etc…

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