Alpendre poesia

Dois poemas de Nina Rizzi

antinotícia de jornal

1.

é triste os viadutos quando crescem a interromper a paisagem

mas mais tristes são os viadutos quando desabam a interromper o progresso

da ida à feira em busca de tomates mais baratos

–   enormes, tóxicos

o progresso

de umas vidas anônimas que não interrompem

não interrompem

o tilintar dos copos e as pessoas na copa

–   ‘agora sim vamos falar da copa’, jornal hoje

2.

nunca vi tantos fogos. hoje vai ter porre. e é triste, eu sei, a violência contra a mulher vai aos píncaros.

3.

são umetanto na terrinha. chove como na pastoral de manhã chuvosa na cidade alta, no capim macio, nesses lugares todos de nomes tão lindos, mãezinha

os lugares, os nomes, são as minhas metáforas -, esses nomes lindos de se estalar na boca feito farinha d’água, essa farinha cearense que é a primeira coisa que busco nesse frio de pés estrangeiros. olho a bananeira pequenininha sob a garoa com uma melancolia bonita, com um verde que se abre em mil matizes. e a ribeira é também um nome bonito, um nome de cidade que se ergue, que abriga amigos novos e velhos num teatro de bonecos, num prédio com piscina pras criancinhas, numa praça que tenha um nome de presidente americano, numa casa de arquitetos; a ribeira é uma casa incendiada e alagada prontinha pra o novo. a

ribeira é a coxa, os beiços vermelhos da menina; e é também esta terra do lado de lá que o atlântico me sopra, me sopra vontades, poemas e a ribeira toda numa minha poema.

**

(mais uma poema sem título por falta de sentido)

na minha quebrada ninguém leu

a última lista

de poetas que marcaram época

sinto diante de tudo que:

minha história individual não importa

a história coletiva

é a história do menino de catorze anos

um corpo negro um corpo à margem

baleado pelas costas

tiros certeiros na cabeça

dados pela polícia e seu estado

são todos assassinos

eu olho para a minha história

plantações de café que plantei

museu do café onde trabalhei

terras improdutivas pelas quais lutei

eu olho para a história que estudei

para o curso de história

onde não tinham as disciplinas

 história da ásia

história da áfrica

história indígena

história do povo

eu olho pra estes prédios

padres, faraó, sapa inca, cortéz, jfk, fhc, nguema

eu olho os quatro cantos de um planeta redondo

tiros tirania barbárie tiros

eu queria ser uma poema-bomba

e incendiar este auditório nesta noite

com cada um de vocês

que gritam lula-livre e cruzam a calçada

omissos demais

cúmplices demais

na minha quebrada ninguém leu

a última lista

de poetas que marcaram época

estavam ocupados

coitados

sendo mais pobres que eu

mais pobres que continuam sendo meus irmãos

– preso por tráfico

– foragido por receptação

estavam ocupadas as mães

lendo no obituário que hoje não

hoje não foi mais um filho meu

tentando não ser bicho

conseguir algum pra comer

fomos obrigadues a descer no seco goela a baixo

escritores brancos proprietários héteros

da parte baixa do país

não lembramos de nenhum

estamos fazendo nossa própria época

escrita a bila

escrita a sangue

‘querendo vocês ou não isto é literatura’

voando livre como um curió um carcará

incendiando tudo cuspindo no túmulo de vocês

***

.

Nina Rizzi é escritora, tradutora, pesquisadora, editora e professora; promove laboratórios de escrita criativa com mulheres. autora de tambores pra n’zinga (multifoco, 2012), A Duração do Deserto (patuá, 2014), geografia dos ossos (douda correria, 2016), quando vieres ver um banzo cor de fogo  (patuá, 2017) e sereia no copo d’água (jabuticaba, 2019). é editora das edições ellenismos e coedita a revista escamandro – poesia tradução crítica.

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