lide liquido

(In) visibilidades e Comunicação é tema de mesa-redonda no Vamos Subir a Serra

Elcias Pereira, Rosa Correia e Isabela Barbosa na Mesa redonda (In) visibilidades e Comunicação. Foto: Sousandré

Era domingo e o relógio marcava 10h50 quando as pessoas começaram a se dirigir para o auditório Ganga Zumba, localizado no Espaço Cultural Zumbi dos Palmares, na Praça Multieventos, local onde aconteceria uma Mesa-redonda sobre (In) visibilidades e Comunicação. A programação fez parte da edição 2019 do projeto Vamos Subir a Serra que tem como objetivo de promover atividades que evidenciem a temática étnico-racial, em alusão ao Dia da Consciência Negra, celebrado no dia 20 de novembro.

Mediada por Elcias Pereira, membro fundador do Centro de Cultura e Estudos Étnicos Anajô, a Mesa-redonda contou com a participação da antropóloga e docente do curso de Relações Públicas da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Rosa Correia e de Isabela Barbosa, também antropóloga e professora do curso de gastronomia da Uninassau. Mas, afinal, o que unia essas duas mulheres em torno do tema da invisibilidade e como isso se relacionava com a comunicação?

Quem começa explicando é Rosa Correia. “Visível é tudo aquilo que está disponível, tudo o que é visto, o que é dito. A nossa preocupação hoje aqui é mostrar o que não é dito, não é visto, nem ouvido. A invisibilidade tem três características: a marginalização, desqualificação e desumanização”.

A antropóloga cita os exemplos de moradores de rua, que muitas vezes parecem fazer parte da paisagem da cidade. “Ele não trabalha, ele não tem casa, ele cheira mal, ele é pobre, ele não é igual a mim, então eu não o percebo, não o enxergo. Ele é invisível”. Ela completa o pensamento destacando como o negro também é invisibilizado em muitos contextos. “No mês de novembro é o período que mais a gente vê falar sobre negritude e sobre combate ao racismo, onde a visibilidade é maior, mas a grande parte das minorias seguem invisíveis”.

A primeira discussão da manhã se deu em torno do projeto de extensão “Fábrica de Esperança: Educação e Trabalho para uma vida lícita após o cárcere”, coordenado pela professora Rosa Corrêia e realizando juntos aos estudantes de Relações Públicas da UFAL. O projeto consiste em um núcleo laborativo que funciona no Complexo Prisional e atende a homens e mulheres privados de liberdade. A fábrica conta com nove oficinas, entre elas artesanato, corte e costura, serigrafia, horta, capinagem e produção de sabão.

A Fábrica de Esperança atende 10% da população carcerária existente em Alagoas, que após uma criteriosa seleção feita por psicólogos e assistentes sociais passam a integram o Núcleo, que tem como principal objetivo a reintegração social do indivíduo privado de liberdade. Os produtos feitos na Fábrica são vendidos todos os domingos em um stand na praia da Ponta Verde. O dinheiro arrecadado com a venda desses produtos tem três destinos: depósito no Fundo Penitenciário, envio para a família e depósito em uma conta para que o reeducando possa retomar a vida pós prisão.

Rosa Correia destaca qual a principal contribuição do projeto:

Foi um trabalho que ajudou a repensar a questão da invisibilidade. A ideia do projeto é fazer visível. Que histórias de vida essas pessoas carregam? O que as levou até ali? O termo que a gente mais ouvia deles é que o projeto lhes trouxe dignidade de volta. Estar na fábrica era ter acesso à educação, trabalho e por tabela, uma renda. Eles se tornam visibilizados novamente.

Trazendo o tema da visibilidade para outra seara, a da gastronomia, Isabela Barbosa, antropóloga e professora de gastronomia da Uninassau, lembra que nos últimos tempos está na moda falar em comida quilombola e indígena e se questiona: “Será que está na moda ou agora está se tornando visível?”. Mesmo otimista, ela pondera que esse tipo de alimentação de povos tradicionais só é visibilizada em espaços como esses, pois na alta gastronomia eles ainda não são reconhecidos.

O silenciamento dos saberes tradicionais dessas comunidades pode ser pensado a partir de práticas cotidianas de restaurantes que vendem pratos, principalmente de frutos do mar, no caso de Alagoas, muito caros, onde o retorno financeiro para os produtores é baixíssimo. Além disso, as pessoas que consomem desses pratos, que muitas vezes se apropriam do saber e da cultura de um povo, são as mesmas pessoas que produzem o preconceito e a opressão contra essas mesmas populações.

Para Isabela, é preciso pensar na função social da gastronomia. “Nem todos comem. Então é preciso pensar não só na alta gastronomia e no glamour. E foi pensando nisso que lançamos a Liga Acadêmica de Estudos e Tradição Alimentar em Alagoas para tratar desse silenciamento de comunidades tradicionais, nosso foco agora são as marisqueiras e marisqueiros da Comunidade Sururu de Capote, no Vergel do Lago, onde estamos buscando compreender o quanto o silenciamento daqueles saberes é forte, principalmente no que se relaciona ao Sururu, marisco estrela do nosso Estado”.

O Sururu foi considerado um patrimônio imaterial de Alagoas em 2014, mas desde 2004, ele foi personagem central do Manifesto Sururu, de Edson Bezerra, que buscava, a partir do marisco, exercitar um olhar sobre as antigas e permanentes imagens das coisas de Alagoas, discutindo, sobretudo, a identidade do povo alagoano.

A antropóloga e professora de gastronomia discorre, ainda, sobre o movimento Slowfood (que surgiu na Itália para se contrapor ao avanço do Fastfood) e que pode ser entendido como o cuidado ao produzir a própria comida e conta um leque de atividades voltadas para os saberes tradicionais. “Eles tem um grupo chamado Arca do Gosto, que busca valorizar os produtores de comunidades tradicionais no Brasil e estamos utilizando essa concepção em nossa Liga Acadêmica ao tentar manter em diálogo direto produtores e compradores”, destaca Isabela.

Esse diálogo tem se mostrado frutífero na medida em que consegue dialogar com chefes de cozinha de Alagoas e donos de restaurantes para que se estabeleça uma rede de compra de insumos, a começar pelo Sururu, que não precise de atravessadores, de modo que esses chefs comprem diretamente com esses produtores, beneficiando, assim, pessoas que nunca foram beneficiados pelo próprio trabalho. Nesse contexto, é possível pensar a cultura alimentar através de quem a faz.

Quem encerra a Mesa-redonda é Rosa Correia:

.

Visibilidade tem a ver com dignidade. Quando se reconhece uma pessoa, quando se reconhece o trabalho dela, se reconhece sua existência. Isso é humanização. Importante falar das pessoas que estão por trás do que a gente consome, do que a gente compra. O reconhecimento melhora a vida das pessoas e a comunicação tem esse papel de tornar visível.

.

O encontro contou com a presença de comunidades quilombolas de Alagoas, como dos municípios de Traipu, Água Branca, Taquarana, Jacaré dos Homens e dos estados do Ceará, Maranhão, Rio Grande do Norte, Paraíba e Sergipe, que ao final das falas fizeram questionamentos sobre retorno das pesquisas para a comunidades, modos de organização social desses grupos de forma que eles tenham retorno financeiro e social sobre suas próprias produções.

O destino a fez jornalista, afinal a única coisa que sabe fazer bem é contar estórias. Ela podia estar fazendo terapia para se tornar uma pessoa melhor, mas escolheu o jornalismo como divã para lidar com as aventuras e desventuras da vida. Ana Cecília (Maceió-AL) também é mestranda em Antropologia Social e tem interesse pelo estudo das dinâmicas urbanas e seus significados.

0 comentário em “(In) visibilidades e Comunicação é tema de mesa-redonda no Vamos Subir a Serra

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: