Alpendre poesia

Dois poemas de Míria Moraes

1.

Quando foi que eu perdi a calma de morar nessa
cidade?
Onde é mais seguro com essa presença?
imposta e inaceitável.
Se eu for na padaria do meu bairro, alguém estará por
perto?
Por acaso, vou ter que deixar de comer pão?

Se eu tiver que ir em uma festa
vou precisar estar acompanhada?
Não posso mais me divertir?
A localização das minhas redes sociais precisa
desaparecer?
Andarei escondida?
Até quando?
O medo vai me impedir de compartilhar algum projeto
que esteja fazendo para não ter que ficar exposta?

Me dizem que a medida protetiva é a melhor escolha
para mim.
Se ele ficar mais bravo comigo
de que forma eu saberei da sua chateação?
Será que daria tempo?
Qual o tamanho dessa raiva?
Por que ainda me culpa e me persegue?
Se eu bloqueei antes por que sempre encontra um
outro número?
Eu tenho que mudar meu número?
Se eu coloquei um fim por que vai até a minha casa sem avisar?
Tenho que mudar de endereço?
Se decidi ir embora por que acha que pode me obrigar
a voltar?
Eu não tenho esse direito?

Todos os dias eu peço um pouco de paz às mulheres!

2.

O que fazer com as palavras?

Hoje me lembrei que eu tinha medo das palavras.
Daquelas que alguns homens proferem indelicadamente
sobre as nossas cabeças
e confundem a nossa existência e o nosso amor próprio.
Me lembrei de alguém que conheci e das suas palavras duras.
Do barulho que elas faziam ao atravessarem o meu espírito:

Barulhentas palavras sobre meus costumes, minhas opiniões
e sobre os meus sonhos.
Impositivas palavras sobre como ele queria que eu fosse
sem nem mesmo olhar para aquilo que eu era.

Agressivas palavras sobre a minha história
o meu gosto e o que eu gosto de ler.
Persuasivas palavras que tentavam me convencer
diariamente
que nenhum outro poderia me amar como ele.

Esse homem
que mal conseguia me abraçar sem me ferir
ou
me tocar sem ofender o meu corpo inteiro.

Não sinto falta dessas palavras.
Já aprendi o que fazer com as minhas.
E é enorme!

***

.

Foto: Dudu Assunção

Míria Moraes é natural de Monte Santo, sertão da Bahia. É escritora, psicóloga, poeta e feminista. Faz mestrado em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais, estudando feminismos e ruralidades no âmbito da psicologia social. Escreve textos e poemas sobre temas como o machismo, violência contra a mulher, relações abusivas, amor, sexo, e conflitos existenciais. Autora de “Pai, não grite com a sua filha” (2018), seu primeiro livro, publicado de forma independente, e de “Sem Poemas” (2019), publicado em formato digital pela Amazon Brasil. Tem publicado seus textos e poemas na internet através da sua página no Instagram (@miriamoraes__).

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