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IX Bienal do Livro de Alagoas: Manuela D’Ávila lança livro e fala sobre amor e resistência em tempos difíceis

Foto: Sousandré

Por Ana Cecília da Silva – 11/11/2019

Às 13h57 no último domingo (11), o sol ainda estava alto e as pessoas já começavam a se acomodar do lado direito da escadaria da Associação Comercial de Maceió na tentativa de fugir do sol. Enquanto o público chegava a produção da IX Bienal do Livro de Alagoas fazia alguns avisos no microfone sobre a mudança no horário da palestra da Manuela D’Ávila, para às 15h.

Pelas ruas do Bairro Jaraguá era possível notar a ansiedade do público pelas palavras de “Manu”, como é carinhosamente chamada por muitos que a veem como uma figura próxima que consegue dialogar e chegar junto ao povo. O público era bem diverso: mulheres, homens, crianças, em pé ou sentados tentando achar o melhor ângulo. Entre a multidão que rapidamente se formava havia um grupo de homens vestidos com uma camisa preta escrito “policiais antifascismo”, pessoas com camisas vermelhas escrito “Lula livre” e também uma família indígena.

Manuela D’Ávila é jornalista e mestre em Políticas Públicas. Foi deputada federal pelo Rio Grande do Sul entre 2007 a 2015, deputada estadual de 2015 a 2019 e candidata a vice-presidente da República na eleição de 2018. Na IX Bienal de Alagoas, ela lançou o seu livro mais recente, Por que lutamos? Um livro sobre amor e liberdade, e também debateu e contextualizou sobre o livro Revolução Laura: Reflexões sobre maternidade e resistência. Ambas as obras foram lançadas em 2019.

Foto: Sousandré

Às 15h20 a Reitora da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Valéria Correia e a Coordenadora da Bienal, Elvira Cardoso apareceram nas escadarias da Associação Comercial sob aplausos da plateia. Em sua fala, Valéria destacou a importância de levar a Bienal às ruas de Jaraguá pela primeira vez. “Isso carrega um simbolismo enorme, de fazer as pessoas ocuparem um espaço que é seu. A Bienal representa a resistência por meio do livro, da cultura e amor em meio a tempos tão sombrios do governo Bolsonaro”, destacou a Reitora da UFAL.

O público, entusiasmado e em uníssono, entoava gritos de “Lula livre”, fazendo menção a liberdade do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva na última sexta-feira (8), após 580 dias de prisão política. Foi em meio a esse entusiasmo que Manuela D’Ávila apareceu no topo da escadaria para se juntar a voz da multidão. “O Lula está livre, eu estou no Nordeste e sou do signo de Leão. Aqui tem uma brisa maravilhosa e se me deixarem eu fico aqui falando por muito tempo com vocês”, brincou Manuela enquanto se acomodava em sua poltrona feita de pallets no meio das escadarias para falar com o público por uma hora.

A jornalista disse que se sentia emocionada pelo fato de duas mulheres, Valéria e Elvira, organizarem um encontro onde os livros são os principais atores em tempos em que o ódio tem sido o principal ativo político em nosso país.

“Pessoas que se encontram pra discutir talvez seja a força mais extraordinária e o caminho mais bonito que tenhamos encontrado pra resistir a esses tempos tão duros que fazem com que todos nós sintamos algo esquisito que fica morando entre o nosso estômago e o nosso coração, uma espécie de aperto. Não sabemos se é uma náusea, uma dor pelo que tem acontecido com o nosso país”.

Apesar de todas as forças do atraso, a jornalista disse que o Nordeste tem sido para ela, um espaço que a faz ter esperança em dias melhores. “Vocês são a terra onde a resistência de zumbi bateu forte e libertou. Nós precisamos da voz, da cor, do grito de liberdade que foi de Dandara e de Zumbi, precisamos da esperança que vocês representam. Vocês enchendo esse bairro com cultura é a maior resposta que podemos dar ao ódio e a ignorância”, disse sob aplausos da plateia.

Foto: Sousandré

Manuela falou que seus dois livros foram lançados em 2019, Revolução Laura: Reflexões sobre maternidade e resistência (Editora Belas Letras) e Por que lutamos? Um livro sobre amor e liberdade (Editora Planeta), contextualizando-os ao processo eleitoral vivido em 2018.  “Foi um processo longo, que começou com o golpe sofrido pela presidente Dilma em 2016”, pontuou.

Segundo Manuela D’Ávila, o impeachment foi marcado por algumas características, como o antinacionalismo, antidemocracia e também o componente do machismo. “As pessoas acreditavam que a Dilma por ser mulher e por não ter um namorado, não era capaz de governar, que se tratava de uma mulher histérica”, complementou.

A jornalista falou ainda que, junto ao golpe sofrido pela ex-presidente Dilma Roussef, caminhava o Lawfare, termo utilizado para definir o uso indevido de recursos jurídicos para fins de perseguição política, que no Brasil pode ser visto na perseguição ao ex-presidente Lula e na construção midiática que se fez a fim de massacrar sua imagem diante da opinião pública. Para Manuela, a estratégia não funcionava junto ao povo e para impedir sua candidatura, foi decretada sua prisão em 7 de abril de 2018.

Em Revolução Laura, ela relata como vivenciou a maternidade dentro do processo eleitoral de 2018 e todos os desafios e preconceitos que teve que enfrentar. “Esse livro foi para me lembrar das coisas extraordinárias que não fizeram desistir do processo eleitoral, apesar da violência política que foi, sobretudo por ser mulher. Eu vivi duas experiências contraditórias e o caminho para enfrentar a experiência do ódio reside muito no que tentei passar nesse livro”, afirmou emocionada.

Manuela falou ainda que no Brasil pretendem nos tirar sentimentos que nos façam ter empatia pelas outras pessoas ou mesmo a ideia de que o outro é tão digno quanto eu. Ela analisa a maneira como o atual governo defende o necrocapitalismo como forma de manter o sistema funcionando com base no fim dos direitos humanos, como aspecto central dessa política. A ex-deputada pontua que “quem compartilha a barbárie não é quem a produz e é preciso disputar a consciência das pessoas que ainda não enxergam a gravidade disso”.

Já em Por que lutamos?, Manuela conta que se trata de um livro sobre o feminismo, principalmente dedicado para mulheres feministas de todas as idades: “As feministas são vistas como mulheres que odeiam a família, a ideia de ter filhos e os homens, mas não é assim. Nós amamos tudo isso e queremos ter o reconhecimento de que as mulheres podem ser livres e ter dignidade. Vivemos num tempo onde a principal reação ao Bolsonarismo e a extrema direita vem das mulheres”, ressaltou.

Ao se encaminhar para o final de sua palestra, Manuela D’Ávila destacou que escreveu Por que lutamos? para aquelas pessoas que, segundo ela, não compreendem o contexto histórico em que estão inseridas.  “Eu não posso tratar o meu avô de 94 anos como se ele fosse o Steve Bannon. Eu não posso tratar uma pessoa que acredita na ideologia de gênero como Olavo de Carvalho. E acho que a gente está fazendo isso. As pessoas têm o direito legítimo de não saber o que nós sabemos. Nós que convivemos com outras pessoas que não tem consciência do que significa cada um desses processos. É possível voltar a conversar com pessoas que acham que nós somos os monstros”.

A ex-deputada destacou ainda que o Brasil não é um país de fascistas. “Temos um fascista e uma milícia que nos governa. Temos gente muito ruim eleita a base de muita mentira e não pela maioria. E precisamos voltar a conversar. Vocês já conquistaram a maioria do povo de vocês, mas vocês precisam nos ajudar a restabelecer esses espaços de diálogo. Nós precisamos nos desarmar uns contra os outros. Devemos nos unir com os nossos para termos força”, afirmou.

Por fim, Manuela lembrou os oito anos que morou em Brasília e utilizou uma metáfora para comparar o Nordeste às flores que surgem depois da seca. “A vida tem uma força extraordinária que é como a força da primavera. Num certo sentido vocês representam isso para o Brasil. Essa força, essa beleza, essa energia. Essa primeira chuva diante da seca. Nos ajudem a ver que a vida vem com tudo e quando ela vem com tudo, o Brasil é grande e feliz de novo. Vocês são a chuva que precisam encher esse país de vida, de políticas públicas, de esperança, de dignidade, de soberania, de relações altivas com as outras nações”, encerrou sob aplausos e gritos do público.

Ao final da palestra, Manuela D’ávila pediu a multidão que ocupava toda a Rua Sá e Albuquerque para gravar um vídeo para enviar ao ex-presidente Lula. Ao som de “Olê, Olê, Olá, Lula Lula” e “Lula Livre”, a deputada encerrou sua palestra e se dirigiu para uma sessão de autógrafos ali mesmo na escadaria da Associação Comercial.

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