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Nelson Motta e Claufe Rodrigues dialogam sobre Produção musical e Literária brasileira na 10ª FLIMAR

Nelson Motta e Claufe Rodrigues. Foto: Sousandré

Difícil tarefa de quem ousar escrever uma biografia sobre Nelson Motta. Dono de uma profícua produção jornalística, musical e literária, em seu currículo se destacam os seguintes epítetos: jornalista, compositor, escritor, roteirista, produtor musical, teatrólogo e letrista brasileiro. Sem contar as mais de 300 músicas com parceiros do porte de Dori Caymmi, Lulu Santos, Rita Lee, Ed Motta, Erasmo Carlos, Guilherme Arantes, entre outros.

Além de trabalhar com música, composição e produção, o incansável Motta também se dedica a literatura, escrevendo livros de contos, romances, contos e biografias, como a de Tim Maia.

Se é difícil, talvez por isso mesmo ele tenha concedido a si mesmo tal missão, conforme anunciou ontem (1/11), em sua participação na 10ª edição da Festa Literária de Marechal Deodoro. Em conversa realizada ontem na Arena Literária da FLIMAR com o também jornalista Claufe Rodrigues, Nelson revela que está escrevendo sua autobiografia, com previsão de lançamento para o próximo ano.

A conversa entre os dois estava marcada para às 16h, mas iniciou às 16:45, em razão de um atraso na primeira atividade da tarde, que ocorreu no mesmo local. Nada que afugentasse o público que lá estava desde mais cedo, ansioso para ouvir de perto as histórias de Nelson Motta.

Antes da conversa entre Claufe e Nelson, o ator, jornalista e superintendente de Fomento e Apoio à Produção Cultural da Secretaria de Cultura, Paulo Poeta, saudou Motta e, em seguida, recitou a letra de “Como uma onda”.

Nelson Motta, Claufe Rodrigues e Paulo Poeta. Foto: Sousandré

Claufe Rodrigues, que trabalhou na TV Globo entre os anos de 1981 a 1988, começou sua fala destacando como sua geração de jornalistas foi influenciada por Nelson Motta, inclusive na entrada na profissão:

“O Nelsinho sempre foi muito ligado com novidades. Um cara muito viajado, muito antenado com as coisas. E não só eu, mas eu e os meus amigos descolados. O (Pedro) Bial dizia a mesma coisa. Porque o Nelsinho não era apenas jornalista. O jornalista naquela época era muito careta. E o Nelsinho, além de ser jornalista, era músico, compositor, transitava em outras áreas. Então quem era jovem naquela época e queria ser um jornalista, a referência era o Nelson Motta”, relembrou.

Foto: Sousandré

Claufe Rodrigues pontuou que, antes de trabalhar como jornalista, Nelson Motta já tinha vencido em 1966 a fase nacional do primeiro Festival internacional da canção, com Saveiros, em parceria com Dori Caymmi e interpretada por Nana Caymmi. E também participou no período da bossa nova com Edu Lobo e Dori Caymmi. Após apresentar brevemente o currículo de Nelson Motta, Claufe pergunta: Tem alguma coisa que você se meteu e não foi bem sucedido?

Bem humorado, muito a vontade no palco da Arena Literária, vestindo camisa de linho azul e short curto de linho azul escuro e sandálias de couro e, principalmente, com a sua habitual memória afiada, Nelson Motta afirmou:

“Em algumas coisas eu não fui bem sucedido de cara, assim né? Quando eu escrevi um musical de teatro em 1976, que era um espetáculo lindo, sofisticadérrimo, com trechos de Jorge Luis Borges, Julio Cortázar, muito focado em literatura latino americana… uma coisa completamente fora de 76, que era o auge da repressão política… O espetáculo foi um fracasso absoluto, perdi muito dinheiro, o casamento (com a atriz Marília Pera) ficou abalado… Mas eu aprendi também na minha vida que no sucesso a gente não aprende nada. É ótimo. É delicioso. Você vai se embebendo daquele sucesso. Mas no fracasso, ao invés de você ficar reclamando do mundo, se sentindo perseguido… aprenda. E eu aprendi muito com o fracasso”.

Sobre a sua longa vivência como letrista de canções e com textos jornalisticos, Nelson Motta comentou que isso o ajudou a escrever ficção, como no caso de seus romances. “Eu vi o Gabriel García Marquez falando uma vez: ‘a literatura se resume a você levar o leitor ao próximo parágrafo’. Aí, meu amigo. O melhor truque a fazer é você ir criando um ritmo que vai hipnotizando o leitor. O cara que trabalhe com literatura tem que trabalhar muito pra conseguir esse ritmo. E a outra coisa é que não tem nada a ver como rima, mas com sonoridade e ritmo”, comentou Motta.

Voltando a pergunta inicial, Claufe Rodrigues pontuou algumas produções e outras atividades que impulsionaram a carreira de Nelson Motta, como no caso da boate Dancing’ Days, que abriu um campo de trabalho para o jornalista e marcou época. Outro ponto destacada foi a capacidade de Motta descobrir grandes nomes da música brasileira.

“O que eu tenho acho que é um faro bom. Nem sempre fui eu que fiz dar certo a coisa. Muitas vezes eu me aproximei, senti o cheiro de sucesso em alguma coisa e complementei ali. Eu devo isso mais ao meu faro do que ao meu trabalho de realização. Quando eu ouvi o Tim Maia pela primeira vez eu pensei: “É claro que esse cara vai dar certo. Ele é um gênio!”. Assim foi com várias pessoas na música brasileira que eu ouvi meia música e já sabia que era incrível”, comentou com entusiasmo Nelson Motta.

Nesse momento da conversa, Motta relembrou sua intensa produção, em jornal impresso e na televisão, de crítica de música em jornal, de filme, de teatro e mesmo de literatura. Claufe comentou que hoje há uma redução dos espaços de crítica, de resenhas: “Hoje há um mundo de opções pra você, mas não tem mais aqueles mediadores”. Sem saudosismos, Nelson Motta afirmou que a imprensa escrita teve durante anos uma importância enorme, um poder incrível na divulgação e, de igual forma, o rádio também. “Mas eu não reclamo, sabe? Quando uma coisa não está indo como eu quero, vou aprender por aquilo. Tem uma coisa da geração mimeógrafo, dos poetas Chacal, Charles, Jorge Peixoto, Bernardo Vilhena, que dizia: “Se você, meu amigo, está deprimido, suprimido, tome uma atitude. Pura ou com gelo, atende ao seu apelo”.

Foto: Sousandré

E foi justamente esse apelo que levou Nelson Motta a se aventurar na literatura, já num período bem posterior ao início de sua produção musical e jornalística, quando o jornalista já passava dos cinquenta anos. Com quinze livros publicados, entre as suas obras estão as biografias Noites Tropicais, Vale Tudo: o som e a fúria de Tim Maia, que juntas venderam mais de trezentas mil cópias). De seus romances, Nelson afirma que o livro que mais gosta é Ao som do mar e a luz do céu profundo, seu terceiro de ficção.

O primeiro – O canto da sereia – foi lançado em 2002 pela editora Objetiva. De seus livros de contos, Nelson destaca Força Estranha, de 2009. “É um livro de contos que tem muita ficção e muita realidade, coisas vividas. É um livro que tem uma característica interessante. São dez contos, todos com começo, meio e fim; histórias independentes. O livro foi muito bem. Eu pedi esse título a Caetano emprestado e dediquei o livro a ele. Caetano foi super gentil”. “Deu um trabalho danado esse livro de contos, mas fiquei feliz. O trabalho é estimulado pela minha ignorância. Por não saber fazer aquilo que vou batalhando pra aprender.

Nelson Motta conta que sua grande literária foi sua mãe, que o jornalista caracterizou como uma leitora compulsiva e que lia um livro novo a cada dois dias. “Lia de tudo, Bukowski, coisas baixas, pornográficas, clássicos. Lia de tudo. Ele adorou o Noites tropicais. ‘Que lindo, meu filho. Que maravilha. Agora se você quer ser escritor de verdade mesmo, pra botar lá no hotel ‘profissão escritor’, tem que escrever um romance. Isso é livro de um jornalista, mas se você quer ser escritor tem que fazer um romance. É pra tanto que eu fui fazer o Canto da Sereia e dediquei a minha mãe: ‘Para minha mãe, que me mandou escrever esse livro’. Mãe manda, né?, comentou Nelson, sob risos da plateia.

Em relação a biografia do Tim Maia, Claufe comentou que um aspecto interessante é que o livro é, ao mesmo tempo, uma biografia e um livro memorialístico, porque muitos fatos narrados o próprio Nelson também viveu, como testemunha ocular e afetiva. Nelson declarou que Vale Tudo: o som e a fúria de Tim Maia foi o livro que lhe deu mais alegrias e contou ao público que, por duas vezes – uma num avião e outra num aeroporto – encontrou uma pessoa lendo um determinado livro às gargalhadas. E quando se inclinou para olhar que livro a pessoa lia se tratava justamente da biografia de Tim Maia.

“Isso vale qualquer troféu para um escritor. Consegui meu objetivo ali. O meu objetivo quando eu escrevo é alegrar, divertir as pessoas, emocionar também e, se possível, esclarecer algumas coisas. É para isso que eu escrevo. Esse é o meu objetivo. Eu quero divertir, alegrar as pessoas. Só isso já é uma missão enorme no mundo em que a gente vive. Isso eu acho um gênero de primeira necessidade”.

Foto: Sousandré

Os últimos vinte minutos de conversa entre os jornalistas girou em torno de uma declaração dada por Nelson Motta, que, em entrevista recente, comentou “fumar maconha a cinquenta e cinco anos e ter uma memória ótima“. Segundo Motta, o intuito não foi o de provocar, mas no meio da entrevista o repórter acabou dando muita ênfase, colocando como manchete. “Deu uma bronca, uma repercussão. A favor e contra. Mas eu vi e achei que era hora de discutir isso um pouco racionalmente. Outro dia um cara falou que eu estava financiando o tráfico. Porra nenhuma! Eu há muitos anos que planto para o meu próprio consumo. Qual é o problema? […] Nos estados unidos liberaram o consumo recreativo e medicinal em vinte dois estados e não aconteceu nada. Os estados ganharam uma grana enorme de impostos e acabou o tráfico”.

Claufe complementou a fala de Nelson Motta fazendo um paralelo com o período da lei seca nos Estados Unidos e afirmou que o debate atual sobre o tema do uso da maconha passa por uma grande hipocrisia e unilateralidade nos discursos, de modo que o comentário de Motta em nosso contexto tem uma relevância muito grande por fomentar o debate. Motta destacou, ainda sobre o tema, que está na hora de se discutir. “Mesmo nesse clima pavoroso que as pessoas se referem a você com termos do tipo ‘mãos sujas de sangue’, ‘você patrocina a morte’, afirmou.

“Eu estou numa fase muito boa da minha vida, de tudo. E quero trabalhar cada vez mais, de preferência em coisas que eu não sei direito, que é o meu grande estímulo. Vamos lá! Estou escrevendo uma autobiografia agora que lá pro fim do verão sai. O título provisório é, com todo respeito, ‘De cu pra lua’. É provisório.”, afirmou Nelson Motta, entre risadas e aplausos do público.

Foto: Sousandré

Concluindo a conversa, Claufe Rodrigues comentou que Nelson Motta completou 75 anos no dia na última quarta (30). A plateia resolveu fazer coro e cantar os “parabéns” para o escritor. Aliás, coro não faltou no momento final, quando o público cantou junto Como uma onda, música de Nelson Motta e Lulu Santos: “Nada do que foi será // de novo do jeito que já foi um dia // Tudo passa, tudo sempre passará // A vida vem em ondas como um mar” .

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