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Educação patrimonial e estratégias de preservação são discutidas no segundo dia da 10ª FLIMAR

Por Ana Cecília da Silva – 2/11/2019

Foto: Sousandré

Era uma tarde quente de sexta-feira e as pessoas já começavam a se acomodar nas cadeiras brancas da tenda montada no pátio externo do Museu de Arte Sacra Dom Ranulpho, no Centro Histórico da cidade. A programação do segundo dia da 10ª Festa Literária de Marechal Deodoro (FLIMAR) estava marcada para ter início às 14h com uma mesa-redonda sobre Educação Patrimonial, mas só às 14h53, palestrantes e mediadores subiram ao palco da Arena Literária.

Tendo como tema “Patrimônio e Literatura”, a 10ª Flimar agregou nos mais diversos espaços discussões a respeito de patrimônio material, imaterial, natural, religioso, turístico e gastronômico.

A primeira palestrante da mesa-redonda sobre Educação Patrimonial foi Greciene Lopes, Pedagoga, Doutora em Educação e Consultora em Educação Patrimonial e Patrimônio Imaterial do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN/AL) que começou sua fala com a seguinte provocação: “Afinal, o que é educação patrimonial? ”, que ela conceitua logo em seguida como sendo: “Pessoas que se reúnem para construir e dividir novos conhecimentos, entender e transformar a realidade que os cerca, sendo uma construção social a respeito de todos.”

Lopes segue sua fala apresentando uma das primeiras ações de Educação Patrimonial realizadas na cidade de Marechal Deodoro como o projeto “Mirando o Patrimônio”, que após a restauração da Igreja Nossa Senhora do Ó pelo IPHAN/AL foram realizadas ações de educação em escolas e oficinas com os alunos no sentido de fazê-los se apropriar daquele patrimônio, gerando ressonância.

O conceito de ressonância é bastante trabalhado quando se fala em Educação Patrimonial e diz respeito a fazer uma determinada comunidade se identificar com um bem patrimonial, sentir que aquele bem faz parte de sua história, sendo responsável pelo desenvolvimento sociocultural do local que habitam. Quando há ressonância são muito mais eficientes as ações de preservação.

Outra importante iniciativa em Educação Patrimonial citada por Greciene Lopes é a Casa do Patrimônio de Marechal Deodoro que recebe a visita tanto de turistas quanto de alunos de escolas públicas para a discussão do que é patrimônio imaterial. A categoria diz respeito àquelas práticas e domínios da vida social onde se manifestam saberes, ofícios e modos de fazer, celebrações, expressões cênicas, plásticas, musicais ou lúdicas ou mesmo espaços onde se desenvolvem práticas culturais coletivas como feiras, santuários e mercados.

Greciene encerrou sua fala com uma importante reflexão e que ajuda a pensar em estratégias de preservação que podem ser consideradas a partir da Educação Patrimonial “As atividades de Educação Patrimonial vem depois das chancelas, dos tombamentos dos bens, mas ela tem que vir junto, tem que estar no processo. Se for posterior, teremos problemas na área de patrimônio”, revelando assim que só com uma Educação Patrimonial simultânea a preservação dos bens patrimoniais é possível pensar em ressonância por parte da comunidade, assim como em uma política efetiva de preservação.

Sandro Gama, Arquiteto e Urbanista e Chefe da Divisão Técnica do IPHAN/AL estava mediando a mesa-redonda e passou a palavra para Josemary Ferrare, Arquiteta e Urbanista – Professora Doutora em Preservação do Patrimônio Histórico da UFAL: Coordenadora de Educação Patrimonial da SCPPH que realizou uma apresentação conjunta com Martha Heleno, Arquiteta e Urbanista da SCPPH/MD.

Foto: Sousandré

As duas profissionais apresentaram protótipos dos produtos a serem desenvolvidos no campo da Educação Patrimonial em Marechal Deodoro, buscando colocar em evidência a cidade como celeiro de valores culturais. Elas defendem inclusive a ideia de que a Educação Patrimonial é um mecanismo de “alfabetização cultural”, onde cada indivíduo reconhece o seu meio e valoriza o mundo que o rodeia, compreendendo a trajetória sociocultural do local em que vivem.

A ideia da Educação Patrimonial como “alfabetização cultural” foi um dos principais pensamentos de Mário de Andrade ao elaborar o anteprojeto para a criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), hoje IPHAN, destacando a importância do caráter pedagógico que os museus e as imagens possuíam.

Josemary também apresentou os produtos desenvolvidos na cidade no ano de 2006, como a distribuição dos gibis educativos. “Viva! Nossa cidade é patrimônio nacional”, além de peças teatrais pelas ruas da cidade e spots de rádio. Sua contribuição foi encerrada com a seguinte inquietação, que era também uma pergunta a ser pensada pelo público, principalmente os deodorenses: “Como as pessoas se sentiam morando em uma cidade histórica? ”. Nesse ponto, pode-se retomar o conceito de ressonância e lançar uma outra questão: Será que as pessoas se identificavam e se apropriavam do espaço em que viviam?

Buscando lançar luz a esse questionamento, Marta Heleno, Arquiteta e Urbanista da SCPPH/MD, prosseguiu apresentando as ações que estão sendo desenvolvidas na cidade para justamente gerar esse sentimento de ressonância entre os habitantes locais. Ela conta que as ações foram divididas em patrimônio natural, imaterial e material e contempla oficinas de desenho, museus nos bairros e varal do patrimônio.

Um dos produtos que ainda está em fase de finalização é a cartilha elaborada junto à Secretaria Municipal de Educação (Semed) de Marechal Deodoro que ao longo de 22 páginas discute e relaciona os patrimônios existentes na cidade, tendo como objetivo facilitar a transmissão de conhecimento sobre patrimônio entre os escolares.

Foto: Sousandré

A arquiteta também apresentou outros produtos como jogo de passeio pelo Centro de Marechal, onde no percurso os jogadores mostram os diversos pontos de interesse cultural da cidade; uma revista de jogos de palavras com palavras cruzadas sobre patrimônio imaterial, jogo de quebra cabeça, jogo de dominó ilustrado, jogo da memória, jogo twister e marcadores de livros. Tendo essas iniciativas o intuito de despertar de forma lúdica a apropriação de seu patrimônio por parte dos moradores de Marechal Deodoro.

A última contribuição do início da sexta-feira foi de Thalianne Leal, Arquiteta e Urbanista, Mestra em Desenvolvimento Urbano pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e técnica do IPHAN/AL. Sua fala gira em torno, principalmente, do papel do IPHAN na Educação Patrimonial dos usuários, visto que a figura do fiscal do patrimônio histórico nem sempre é vista com bons olhos.

“Para mim, deve haver uma relação de mão dupla entre o órgão fiscalizador e os habitantes locais. Não acredito em uma relação de professor e aluno entre nós, mas acredito muito mais que nosso papel como fiscal é ser facilitar, mostrando ao usuário como proteger aquele bem, pois só coletivamente é que podemos atingir o conhecimento”, destaca Thalianne Leal. Para ela, o mais importante é sensibilizar individualmente as pessoas que não tem acesso as capacitações, destinadas geralmente a educadores. Ela propõe, assim, um acesso mais democrático a essas ações de Educação Patrimonial.

Foto: Sousandré

Com pouco mais de 1 hora de duração, a mesa-redonda encerrou com a fala do mediador Sandro Gama, Arquiteto e Urbanista, chefe da divisão técnica do IPHAN/AL que resumiu bem a principal função da Educação Patrimonial. “É fazer as pessoas se reconhecerem no patrimônio, tendo como consequência sua preservação mais efetiva”.

Por conta da hora avançada e da necessidade de começar as demais palestras, só foi aberta uma pergunta para a plateia. Uma senhora perguntou com entusiasmo como está sendo a receptividade das ações de Educação Patrimonial. Foi Martha Heleno quem respondeu: “A maioria delas ainda está em fase de implantação, mas das ações que já realizamos a receptividade está sendo maravilhosa. As pessoas estão entendendo a necessidade de preservar seu patrimônio histórico”, comemorou. A mesa encerrou sob aplausos da plateia, que a partir dessas contribuições podem pensar que Educação Patrimonial e preservação dos bens não só por meio de seu conteúdo técnico, mas valorizando, sobretudo, o sujeito como produtor de cultura que tem nos bens patrimoniais o reconhecimento de sua identidade cultural.

O destino a fez jornalista, afinal a única coisa que sabe fazer bem é contar estórias. Ela podia estar fazendo terapia para se tornar uma pessoa melhor, mas escolheu o jornalismo como divã para lidar com as aventuras e desventuras da vida. Ana Cecília (Maceió-AL) também é mestranda em Antropologia Social e tem interesse pelo estudo das dinâmicas urbanas e seus significados.

1 comentário em “Educação patrimonial e estratégias de preservação são discutidas no segundo dia da 10ª FLIMAR

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