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Gilberto Gil e Ana de Oliveira refletem sobre temas do livro ‘Disposições Amoráveis’

Ontem (31/10), na programação oficial da 10ª Festa Literária de Marechal Deodoro (FLIMAR), a palestra estava marcada para 15:30, porém às 14:00 algumas dezenas de pessoas já se encontravam nas imediações do Claustro do Museu de Arte Sacra Dom Ranulpho, ansiosos pela chegada de Gilberto Gil e Ana de Oliveira. Em pouco mais de meia hora quase a totalidade das cadeiras já estava preenchida, inclusive as que foram posicionadas nas laterais do palco.

No claustro, que fica no pátio aos fundos do Museu, foi montada uma tenda com palco, duas poltronas para os palestrantes e um pouco mais de 200 (duzentas) cadeiras plásticas. Mesmo com uma área aberta e ventilada, a organização do evento posicionou ventiladores nas laterais (dois em cada) e no fundo do palco (dois também). A leve elevação no perímetro do público permitiu aos participantes uma boa visualização do palco, no qual se destacava um telão de fundo com a logo da 10° Flimar e os Patrocinadores do evento: Governo de Alagoas, Sebrae, Banco do Nordeste, IPHAN, Caixa Econômica e Governo Federal.

Ao fundo, uma reprodução do Centro Histórico de Marechal Deodoro, em marca d’água. A referência é relacionada ao tema da FLIMAR 2019, “Patrimônio e Literatura”, e que foca na discussão acerca da importância do patrimônio histórico e dos recursos patrimoniais por meio de práticas literárias e culturais.


Gil e Ana chegaram no local às 15:22 e foram recebidos com palmas entusiasmadas do público, que já tomava a totalidade das cadeiras e muitas pessoas em pé. No público notava-se a presença de muitos estudantes, muitos com a farda do IFAL Campus Marechal Deodoro e de outras escolas da região.

Estiveram presentes também o Prefeito da cidade de Marechal Deodoro, Cláudio Roberto Ayres da Costa, o Secretário Municipal de Cultura e Patrimônio histórico, Allisson Diego de Lima Santos, Deputados Estaduais, empresários e a Secretária de Cultura de Alagoas, Melina Freitas. As três primeiras fileiras eram destinadas aos convidados/as para a solenidade de abertura, que teve momentos de apresentações culturais.

Participaram da solenidade da abertura o Maestro Max Carvalho, que apresentou os músicos Joshua Alcântara (clarinete), Oriêta Feijó (piano), Selma Brito (piano), Elvira Regina (canto lírico), Nelson da Rabeca e o Projeto Cantarolando.

O Prefeito Cláudio Roberto Ayres da Costa ressaltou que Gil tem uma relação estreita com Marechal Deodoro, desde em que ainda era Ministro da Cultura e assinou o tombamento da cidade alagoana como patrimônio histórico: “Tudo isso que vocês estão vendo restaurado hoje em Marechal Deodoro, tudo isso devemos, ministro Gilberto, àquele ato, quando o senhor foi ministro, e assinou o tombamento da cidade de Marechal Deodoro e daí deu condições para Marechal resgatar o seu patrimônio”, afirmou o prefeito.

Gilberto Gil demonstrou-se emocionado com as apresentações culturais, principalmente com a apresentação do Cantarolando, formado por crianças, que, em sua performance, cantou as musicas Sitio do Pica Pau amarelo e Palco.

Em formato de talk show, Ana de Oliveira e Gilberto Gil começaram as suas atividades às 16:30. Ana de Oliveira começou agradecendo ao público pela presença e aos organizadores da Flimar pelo convite.

Seguindo o roteiro dos capítulos do livro, Ana começou a sua fala ressaltando que Disposições Amoráveis traz e condensa o que ela intitula como o pensamento original de Gilberto Gil. De acordo com Ana de Oliveira, a inspiração para fazer esse livro veio da própria palavra do compositor. “Gil parece que tem um segredo que nos conecta com o que há de mais profundo na gente mesmo e na vida”, comentou Ana.

O livro Disposições Amoráveis tem um formato de conversas e reúne respostas de Gil para questionamentos sobre sustentabilidade, política, cultura, cidadania, música, ciência, espiritualidade, mídias digitais e afins. Quatorze convidados/as enviaram perguntas ao músico: Leonardo Boff, Fritjof Capra, Luiz Eduardo Soares, Preto Zezé, Marina Silva, Luis Inácio Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso, Flora Süssekind, Christopher Dunn, Gal Costa, Jorge Mautner, Nelson Motta, Eliane Costa e Pierre Lévy.

Dividido em seis capítulos (“O que permanece é a impermanência. Ciência e Espiritualidade”, “Tudo sob a luz do sol: cultura e raça”, “A compreensão da simultaneidade: sustentabilidade & ação”, “Cultura indômita: tropicalismo & tropicalidades”, “(i) mediatização: liberdade digital & cidadania global” e “Pensar um tempo circular: música & borogodós”), o livro foi lançado em 2015 pela Editora Iyá Omin (288 págs) e procura condensar parte das reflexões filosóficas de Gilberto Gil que, normalmente, aparecem difusas em algumas de suas letras.

Em suas canções, entre metáforas, oximoros, metonímias etc se escondem grandes temas filosóficos, tais como Religião, Vida e Morte, Racismo, Ecologia e Cultura.

Com a voz calma e compassada, Gil começou a sua fala afirmou estar emocionado com a presença do público e com a homenagem, agradeceu as palavras do Prefeito e relembrou de sua primeira passagem por Marechal Deodoro, quando ainda ministro. Em seguida, começou a dialogar com Ana de Oliveira sobre os capítulos do livro.

No primeiro capítulo, “O que permanece é a impermanência. Ciência e Espiritualidade”, a conversa foi sobre a presença de deus (e de deuses) nas suas canções e em sua própria vida.


Nas discussões sobre o terceiro capítulo (“A compreensão da simultaneidade: sustentabilidade & ação”), que por sua vez surgiu a partir das indagações de Luiz Eduardo Soares e Preto Zezé; Ana perguntou a Gil “Como lidar com esses discursos racistas, sexistas, homofóbicos, que a todo instante surgem querendo excluir e marginalizar uma parcela da sociedade?”.

De acordo com Gil, “lidar com isso está no próprio lidar com a vida. Nós somos pessoas, indivíduos, separados cada um de nós, confinados, contidos em nossos próprios corpos, nas nossas próprias configurações pessoais, particulares; mas nós somos também, por força desse imperativo de vida, somos um coletivo, somos pessoas que temos que obrigatoriamente nos colocar no campo da interação, no campo do diálogo, no campo da troca permanente com todas as outras pessoas.

Para o compositor, é uma obrigação e mesmo um impulso natural presente em todos, fazer com que a pluralidade de pessoas, de gêneros, de tudo, seja harmonizada. “Essa pluralidade precisa ser harmonizada pra que a gente possa seguir adiante”, ponderou.

Em tom crítico, o músico afirmou que o Brasil vive uma onda de conservadorismo e na qual há uma tentativa de reduzir tudo a uma determinada visão, seja política, religiosa, filosófica etc. Segundo Gil, “nós temos essa tentativa de busca de uma dominação de uma determinada forma pensar, de uma determinada forma de entender o mundo, de entender o presente e o futuro, em detrimento em tudo o que não seja esse pensamento”.


Entre os comentários e discussões dos capítulos do livro, músicas do extenso repertório de Gilberto Gil foram executadas. Em diversos momentos o musico cantou junto com os músicos Almir Medeiros (violoncelo), Bruno Palagnani (bandolim), Júnior Almeida (vocal) e Toni Augusto (violão), que iniciaram a apresentação com a música Aqui e Agora: “O melhor lugar do mundo é aqui e agora // Aqui onde indefinido // Agora que é quase quando // Quando ser leve ou pesado // Deixa de fazer sentido”.

No conjunto de músicas apresentadas, destaque para “Quanta”: “Quanta do latim // Plural de quantum // Quando quase não há // Quantidade que se medir // Qualidade que se expressar // Fragmento infinitésimo”, na qual Gil e Ana relacionaram com o primeiro capítulo do livro, e que discute aspectos da religiosidade na vida e obra do cantor e compositor.

Em “A novidade” “A novidade veio dar à praia // Na qualidade rara de sereia // Metade o busto d’uma deusa Maia // Metade um grande rabo de baleia”, o público participou em diversos momentos, inclusive na estrofe em que as onomatopeias são muito conhecidas.

A ultima música da participação de Ana e Gil foi “Babá Alapalá”, que serviu como um aquecimento para o show que Gil fará hoje (1/11), às 20:00, no adro do Complexo Franciscano. “Babá Alapalá” colocou o público para dançar e cantar juntos com Gil e os músicos. “Aganju, Xangô // Alapalá, Alapalá, Alapalá // Xangô, Aganju”.

Após os agradecimentos de Ana e Gil a organização da FLIMAR pelo convite, a palestra acerca do livro “Disposições Amoráveis”, se encerrou às 18:00, com o público aplaudindo de pé e, em seguida, se avolumando ao redor de Gil e buscando o melhor ângulo para um selfie.

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