Ensaio

ENSAIO – Milton: o mais puro antídoto contra o pessimismo dos dias atuais

E porque o ouvir, em 2019, é uma importante forma de resistência.

Por Stéfany Caldas – 26/10/2019

Milton Nascimento. Foto: Reprodução

Milton Nascimento acaba de completar 77 anos. O renomado artista realiza turnê em que revisita o aclamado álbum Clube da Esquina. Ele segue, como de costume, emocionando o público.

Se eu pudesse entrevistá-lo, entre as diversas perguntas que faria, certamente estaria uma principal: Por que agora o Clube? Como surgiu o interesse de trazê-lo ao público outra vez? Talvez eu também desconfie da resposta. Milton é um ser que acredita na magia e na amizade. E também na magia da amizade.

Longe de querer brincar com trocadilhos, suponho que as duas palavras possam aproximar-se da definição que acompanha a sua trajetória na música e de vida. Ouvir seu som em 2019 continua sendo tão ou mais relevante do que antes. As músicas de Milton, e, principalmente, a turnê do Clube da Esquina, são uma forte oposição contra os valores e sentimentos esquecidos pela sociedade e pelo atual governo.

Ele fala de coisas bonitas que
Eu acredito que não deixarão de existir
Amizade, palavra, respeito
Caráter, bondade, alegria e amor
(Bola de meia, bola de gude)

Mais do que acreditar em magia, o artista permite-se ser guiado por ela. E, ao caminhar junto do “canto da sereia”, ainda que, momentaneamente sem compreender onde o caminho o levará, mergulha e faz significativas escolhas, que desembocam em emocionantes descobertas. Ao passear novamente pelas canções que formam o Clube da Esquina, Milton nos brinda não só com a pureza de sentimentos que nos aquecem o coração, mas revisita a sua infância e a sua mocidade, e, assim, nos apresenta o valor destas fases da vida para uma existência plena e feliz.

Foi esse magnetismo que o levou até Lília, mãe adotiva, professora de música, lar onde Bituca teve contato com violão, e, às escondidas, compôs sua primeira música instrumental. Daí a passar a morar em BH, no Edifício em que abrigava alguns dos que viriam a ser seus especiais amigos e icônicos personagens do Clube da Esquina – os irmãos Borges, sendo Bituca considerado naquela casa o décimo segundo filho -, foi um pulo. Ao lado de Márcio Borges, ao assistir ao filme Jules et Jim, Bituca se sentiu ainda mais inspirado a compor:

Nossas lágrimas furtivas eram lindas, iluminavam um universo novo que se descortinava à nossa frente, revelando a plenitude, a possibilidade de comunhão daquele amor único por toda a espécie humana, sentimento poderoso compartilhado ali entre dois seres que o destino há tão pouco tempo colocara frente a frente naquela Babel que era o (Edifício) Levy e já os transformara, sim, sem dúvida, nos dois mais intensos, harmônicos e especiais amigos que aquela cidade ou qualquer outro já vira.
(BORGES, MARCIO, os sonhos não envelhecem).

O misticismo também marcou o seu encontro com Fernando Brant – letrista da canção que emociona gerações na voz de Milton até hoje, Travessia -, dentro de um ônibus, cuja apresentação, feita por um amigo em comum, resultou numa ida dos dois, logo em seguida, a um barzinho, para continuar a conversa. A afinidade havia sido imediata.

Milton, que sentiu na pele a marca de um Brasil preconceituoso e racista, foi proibido de entrar num clube, em um Réveillon, por ser negro. Além disso, sofreu perseguições e ameaças constantes devido ao posicionamento favorável às lutas sociais. Ao gravar suas primeiras canções nos anos de 1960, utilizou sua arte para se expressar contra a ditadura.

Foto: Reprodução

.

.

Um militante social e ecológico. A favor dos negros (Milton viajou o mundo com a Missa dos Quilombos, projeto que virou disco), dos pobres, dos índios (seu disco Txai, em 1991, teve o intuito de chamar a atenção para a causa da Amazônia, e em 2017 lançou o álbum Semente da Terra, nome com o qual os índios da tribo Guarani Kaiowá realizaram o seu batismo após um show em Campo Grande/MS), da natureza, e, ao contrário da infeliz matéria veiculada recentemente, e, repercutida fortemente, um grande incentivador dos jovens talentos da atualidade.

.

Eu nunca havia participado de projetos ao lado de tanta gente boa como agora. Nas viagens, a única coisa que eu vejo é alegria. E pra falar a verdade, nunca parece que estamos trabalhando. Essa é a principal luz que nos guia pelo caminho: a amizade. Esperança, otimismo, amizade e nada mais além disso.
(NASCIMENTO, Milton. Milton Nascimento, letras, histórias e canções, 2017).

.

Ao longo de sua carreira, sua forma de se expressar, suas letras, seus projetos e seus discursos estiveram sempre lado a lado com sua caminhada política, seu papel como cidadão, um porta-voz corajoso e firme daquilo em que acreditava. Canções como Coração de Estudante, Credo e Menestrel das Alagoas embalaram e estão intimamente interligadas aos momentos cruciais da política brasileira. Assim como Cálice, junto com Chico Buarque, se tornou um dos mais resistentes hinos contra a ditadura militar. Mais recentemente, durante a turnê do Clube da Esquina, em um show no Rio de Janeiro, Milton mandou o recado: “A educação é a única coisa que a gente não pode abrir mão. Viva a UFRJ, viva o Colégio Dom Pedro II”, e apresenta o uniforme do colégio, ao som do coro de Ele Não, vindo da plateia, uma reação aos cortes na Educação vindos do atual governo.

Se uma parcela de nós ainda permanece a mesma e continua negando a existência de aquecimento global, do direito indígena e do respeito aos negros, homossexuais e permanece apática à desigualdade social, a parcela que acordou e está indignada encontra na voz de Milton uma reconfortante proteção, é acarinhada enquanto é regida, neste segundo Brasil e pela presença cuja energia é indescritível do Bituca, que se comporta como um discreto e competente maestro de toda a nossa orquestra. Ou, melhor, o pajé da nossa aldeia. O mais belo de tudo isso é que, embora aclamado, indiscutivelmente talentoso e relevante para a música brasileira e mundial, Bituca segue em seu espaço, comedido: “Discreto, Milton foi se fazendo famoso sem nunca colocar a carapuça de rei” (CAYMMI, Dorival, in: Milton Nascimento, letras, histórias e canções).

Milton significa o sonho. O impulso que falta para continuar e perseguir os objetivos perdidos ao longo de alguma viagem. Seus discos, da primeira e última faixa, são uma espécie de tratado sobre todos os sentimentos que existem no mundo. Estão ali os ensinamentos básicos da vida: força, amizade, humildade, esperança, amor. Milton dá a receita de como se tornar uma pessoa melhor, sempre. (NUHA, Danilo).

Alguma dúvida de que é esse o antídoto mais puro e forte para sobreviver e continuar vivendo com a mania de ter fé na vida, ainda que sejam áridos e brutos os tempos atuais? Milton Nascimento é a fonte doce e pura para aqueles que querem recarregar suas energias em busca de um mundo melhor. Para quem busca força para ajudar a construir um mundo melhor. … E não se esquecer de ver magia nas coisas. Sempre!

***

.

.

.

Stéfany Caldas é jornalista, especialista em assessoria de comunicação e marketing, fã de música, futebol, natureza, bichos e gente.

%d blogueiros gostam disto: