Ensaio

ENSAIO – Foucault: A docilidade do corpo como obediência política

Por Ana Cecília da Silva – 15/10/2019

Michel Foucault. Foto: Reprodução

“Dócil”, adjetivo utilizado para definir aquele que se lida com facilidade, sendo também aquele que obedece sem resistência, se submetendo a algo ou alguém. O Corpo Dócil é uma das primeiras categorias da obra de Foucault (1926-1984), podendo ser encontrado em todas as esferas e instituições de nossa sociedade, na escola, nos ambientes de trabalho, no exército, na igreja, nas prisões e nos hospitais. Dócil é o corpo trabalhado arduamente através de mecanismos de poder que tornam aquele corpo treinado, moldado, útil e acima de tudo sujeitado.

Michel Foucault nasceu em 15 de outubro de 1926 e foi filósofo, teórico social, filólogo, crítico literário e professor da cátedra Histórias dos Sistemas do Pensamento no Collège de France e tem sua obra centrada na relação entre poder e conhecimento e como eles são usados como forma de controle social por meio das instituições sociais.

Para Foucault, a docilidade do corpo começa cedo, passando por vários estágios de confinamento até estar acabado. Para descrever a docilidade do corpo e como ela é trabalhada, Foucault se utiliza da figura do soldado, que é formado através das técnicas de disciplina estabelecidas pela arte das distribuições espaciais e controle regular de suas atividades. A figura do soldado ilustra o homem adestrado, construído e formado a partir de um trabalho minucioso, onde se aprende a obedecer regras sem questionar.

Em uma perspectiva mais moderna, o corpo dócil também é encontrado na família; depois a escola, onde se aprende os primeiros passos da obediência; no ambiente de trabalho, onde se aprende a vender a força de trabalho e ser lucrativo e eficiente. Os hospitais, presídios, igrejas também são instituições importantes para a docilização do corpo.

As instituições desempenham papel fundamental para a docilização dos corpos. É o que podemos ver na obra da Goffman (2001), Manicômios, Prisões e Conventos. Para o autor, que trabalha sob a perspectiva das instituições totais, ou seja, locais de residência e trabalho onde um grande número de indivíduos, separados da sociedade por um considerado período de tempo, levam uma vida fechada, certos mecanismos de estruturação de uma instituição acarretam consequências na formação do eu do indivíduo que nela participa.

Quando as pessoas se movimentam em conjuntos, podem ser supervisionadas por um pessoal, cuja atividade principal não é orientação ou inspeção periódica (tal como acorre em muitas ralações empregador-empregado), mas vigilância – fazer com que todos façam o que foi claramente indicado como exigido, sob condições em que a infração de uma pessoa tende a salientar-se diante da obediência visível e constantemente examinada dos outros (GOFFMAN, 2001, p.18).

As prisões, tratadas por Foucault em Vigiar e Punir, são exemplos de instituições totais que atuam na docilização dos indivíduos. Porém, como já dito, o corpo dócil não é encontrado apenas nesse tipo de estrutura mais fechada, mas também no trabalhador ativo, no soldado que obedece ordem, na escola e sua divisão de tempo, anulação do que pode perturbar ou distrair e utilização exaustiva do tempo, implicando, nesses casos, em uma coerção ininterrupta que vela sobre todos os processos da atividade.

O corpo humano entra numa maquinaria de poder que o esquadrinha, o desarticula, e o recompõe. Uma “anatomia política”, que é também igualmente uma “mecânica do poder”, está nascendo; ela define como se pode ter domínio sobre o corpo dos outros, não simplesmente para que façam o que se quer, mas para que operem como se quer, com as técnicas, segundo a rapidez e a eficácia que se determina. A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados, corpos “dóceis”. (FOUCAULT, 2002, p.119).

Assim, esse poder disciplinar é exercido diretamente sobre o corpo individual. O indivíduo é disciplinado, treinado, adequado ao máximo do uso econômico e o mínimo político, já que nesse processo as subjetividades terminam por ser fabricadas e para ser útil a cada instante é preciso deixar o pensamento crítico de lado.

É nesse contexto de gestão e disciplina do corpo individual por meio das instituições sociais, que surgem dois conceitos centrais da obra de Foucault, que são o de Biopoder e Biopolítica. O Biopoder se refere a práticas de estados modernos e sua regulação dos que a ele estão sujeitos por meio de técnicas para obter a subjugação dos corpos e controle das populações. Ele tem sido frequentemente utilizado em referência a práticas de saúde pública, regulação de natalidade, sexualidade, costumes e todas as práticas que se tornam preocupações políticas ligadas à saúde física. Já a Biopolítica seria definida então como a prática de Biopoderes locais.

A prática da Biopolítica contrasta com as práticas de poder por parte do Estado baseadas em ameaças de morte, onde o soberano tinha o poder de dispor sobre a vida de seus súditos. “O direito que é formulado como ‘de vida e morte’ é, de fato, o direito de causar a morte ou de deixar viver” (FOUCAULT, 1999, p.127).

Porém nos estados modernos, esse direito sobre a morte foi substituído pelo poder sobre a vida, ou melhor, o controle da vida, onde são aplicados meios de correção do corpo e não mais meios de punição apenas. Na gestão do Estado sobre a vida agora é separado o que é normal do que é patológico, em uma imposição de um sistema de normatização de comportamentos e afetos. “Apresenta-se agora como o complemento de um poder que se exerce, positivamente, sobre a vida, que empreende sua gestão, sua majoração, sua multiplicação, o exercício, sobre ela, de controles precisos e regulações de conjunto” (Idem, p.128).

Como consequência do poder sobre a vida, o sexo se tornou o alvo central das intervenções políticas pela possibilidade de exercício concomitante das duas formas de poder sobre a vida: a disciplina do corpo e a regulação da população.

A partir dessa perspectiva podemos entender o corpo, como objeto estratégico de poder, sobretudo, o das mulheres, onde se operam a maior parte das disciplinas e regulações sobre a vida, principalmente em relação ao controle de natalidade e hereditariedade e o que se chamou de “histerização das mulheres”, vistas pela medicina do século 19 como incapazes de ter controle de suas próprias emoções e por isso a necessidade de medicalização minuciosa de seus corpos e de seu sexo, em nome da responsabilidade que elas teriam no que diz respeito à saúde de seus filhos e à solidez da instituição familiar.

A histeria foi uma condição médica reconhecida no século 19, hoje totalmente desacreditada, onde o corpo da mulher sofreria, por destino biológico de uma fraqueza que as tornava incapaz de ultrapassar o estado da natureza e portanto, seus corpos tendiam a se desordenados, pouco racionais e por isso, presas fáceis dos demônios da loucura.

A ideia de Foucault sobre a docilização dos corpos não gozou de unanimidade, Terence Turner (1994) fez críticas a essa ideia por acreditar que Foucault não considerava a agência individual das pessoas ao perceber cada indivíduo como mais uma engrenagem do sistema incapaz de se desvencilhar de todo o poder disciplinar imposto no governo da vida por parte das instituições. Para Turner, ele não considerava formas de resistência ao poder controlador.

É fato que os corpos dóceis são efeitos de uma sociedade disciplinar que produz indivíduos seriados. Uma sociedade que não apenas reprime ou pune, mas cria corpos e mentes, conduz, regula a vida e suas possibilidades. Nesse sentido, o argumento de Turner é válido, porém é preciso compreender que não existe um único poder controlador central, o poder está diluído nas mais variadas esferas da sociedade, atuando em diversas frentes.

Essa intervenção direta na conduta humana acaba se tornando o principal mecanismo de poder, interferência que está tão arraigada em nossa rotina, de maneira sutil, e dos que estão a nossa volta que não percebemos o quão estão condicionados na busca de nos tornamos produtivos e úteis que nem sempre paramos para pensar que a docilização do corpo está justamente na junção da utilidade em termos econômicos e da docilidade em termos de obediência politica.

REFERÊNCIAS:

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1999.

___________. Vigiar e punir. História da violência nas prisões. Petrópolis: Vozes, 2002.

GOFFMAN, Erving. 2001. Manicômios, Prisões e Conventos. Tradução de Dante Moreira Leite. 7ª edição. São Paulo: Editora Perspectiva, 2001.

TURNER, Terence. Bodies and anti-bodies: flesh and fetish in contemporary social theory. In: Thomas Csordas (ed.). Embodiment and experience: The existencial ground of culture and self. Cambridge: Cambridge University Press, 1994.

O destino a fez jornalista, afinal a única coisa que sabe fazer bem é contar estórias. Ela podia estar fazendo terapia para se tornar uma pessoa melhor, mas escolheu o jornalismo como divã para lidar com as aventuras e desventuras da vida. Ana Cecília (Maceió-AL) também é mestranda em Antropologia Social e tem interesse pelo estudo das dinâmicas urbanas e seus significados.

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