Alpendre Conto

A menina nua, conto de Alex Andrade

Àquela noite ele falou para eu abandonar a escola.

– Por quê? – Eu perguntei envergonhada.

Disse que não era para contar a ninguém.

– É pecado? – Perguntei de novo.

O caminho entre o matagal e a minha casa, se é que aquilo poderia ser chamado de casa, era escuro.

Ele pediu que eu fosse na frente.

– Tenho medo.

– Vá.

Ele agora era outro. Me largou no meio do caminho e se foi para o outro lado.

Parei para contar as moedas. Não tinha ideia de quanto valia. Abaixei mais a frente e peguei a minha cesta de balas no mato.

Deu pena. Não tinha vendido nenhuma.

Deu pena. De mim também.

Olhei os carros parados no sinal, ainda tinha que vender uma a uma, senão mãe bate.

No dia seguinte ele parou o carro e buzinou.

Fui correndo feito besta porque dentro do carro era mais feliz do que deitada na minha cama, que era dura feito pedra. Aí eu pulava como criança.

– Deixe de ser boba, menina. Parece que nunca andou de carro.

Os olhos dele eram que nem a lua, o cabelo feito nuvem, as mãos enrugadas, e ele me tocava e depois me dava moedinhas, que era pra botar no cofrinho.

– Quando tu crescer, esse cofrinho vai estar cheio de moedinhas do teu velho, ele dizia.

– Vou comprar uma casa prá mainha e vou me casar de véu e grinalda, igual às moças da televisão.

Ele ria de mim, porque ele gostava dos meus sonhos.

Perguntei à ele se ele um dia queria ser marido de alguém, mas já estava na hora de ir embora, e eu tinha que descer do carro e atravessar aquele matagal sozinha.

No outro dia eu pedi que me levasse para ver o mar. Nunca tinha visto o mar de perto, só na televisão.

– É perigoso. O mar é imenso.

– Engole a gente, é?

Ele me chamou de tonta, que era para tirar essas ideias malucas da cabeça, que era melhor eu ficar vendendo balas no trânsito do que ficar imaginando besteira.

E fez cara de mau.

Deu uma vontade enorme de chorar.

Mas ainda tinha que atravessar o matagal e pegar a cesta que ficava escondida entre uma pedra e um murundu.

Queria mesmo era ver o mar. Na cama, de noite, quando a lua batia na janela com aquela luz de iluminar a casa inteira, ficava sonhando com outro mundo, diferente daquele, longe de tudo, sem balas no trânsito engarrafado, sem matagal ermo para atravessar.

Hein? Não quer me levar para ver a praia? Eu faço de tudo para chegar perto do mar. E num conto pra ninguém. Quando eu tiver perto da água, vou mergulhar feito peixe, tiro a roupa e nado igual lá no igarapé.

Ele começou a rir.

– Vai, me deixa garota enjoada, que conversa fiada. Teu destino é aqui no meio do mato, vendendo bala pra comprar feijão.

Deu vontade de vomitar daquela vez, quase que encharco a calça daquele traste de mistura de gororoba com feijão do outro dia. Velho asqueroso.

– Desce, anda! E vê se amanhã não me aparece com essas ideias de girico.

E lá ia eu. Desgraçada que nem planta que não dá fruto. Retraída, desumanizada. Difícil nessa vida era ser feliz. E ficava ouvindo toda noite o barulho do mar, feito um zumbido, feito sombra, e me lembrava daquele velho moribundo, que só queria se aproveitar da minha juventude. Meu Deus, se mainha descobre onde eu ganho essas moedinhas, vai arrancar o meu couro numa chinelada.

Noutro dia parou um carro na esquina, pediu um saquinho de balas e perguntou se eu queria dar uma volta no quarteirão. Disse que não. Estava juntando dinheiro para ver o mar, falei, toda convencida. O homem riu e perguntou se era o mar do nordeste ou do sudeste. Eu respondi que mar era mar, não importava se de um lugar ou de outro. Queria ver o mar. E ele riu de novo. Tava tocando uma música bonita no rádio do carro, aí eu cantarolei “Pobre moreno / que de noite no sereno / espera a lua no terreno / tendo um quintal por companheiro…” O danado do homem arregalou os olhos para mim e disse:

– Diacho, e onde uma menina tão menina conhece essa música?

– Sou menina não, senhor. Tenho alma de mulher velha, vivida, que a vida vai aos poucos desajeitando.

– Entra aqui, moça. – Ele pediu, abrindo a porta. – Quero te levar para ver o mundo, e no mundo tem mais do que o mar, tem estrelas, tem lua, tem rios e tem sonhos.

E que danado de homem corajoso. Ficou ali, emparelhado com a calçada com o carro escancarado que era para que eu entrasse. Fui não. Eu queria conhecer o mar com o outro. O velho do cabelo de nuvem, dos olhos de lua. Era ele fazer cara feia que eu gostava que só. Posso não, moço. E fui andando feito boba entre os carros.

– Entra! Entra, desgraçada! Sua vadia! Era o que ele falava enquanto escancarava a porta do carro no meio da avenida. O velho de cabelo de nuvem fumegava, o corpo suado, a cara sem sol. Não posso, respondi. Eu vou atrás de você, sua vaca! Dizia o velho. Entra logo! Ou eu vou te colocar aqui à força.

Pálida e encolhida, em meio a tantas buzinas, balas e a música que reverberava no esquecimento. Mainha, eu menti pra você, me perdoa! Tive medo. Tive pena. Os olhos de lua do velho agora soltavam fogo, feito um demônio. Me agarrou pelo pescoço e colou minha nuca no encosto do banco do carro, sufocando, não me mate, balbuciei. Quer ver o mar, não quer? E por isso fica se oferecendo pra todo homem que passa? Foi subindo por cima de mim com aquele peso todo, como quem manda, como quem está ferido, com força, com raiva, com o coração partido, com ódio. Depois me engoliu a boca com os dentes afiados e mordeu forte, como quem come um pedaço de frango. Quer ver o mar? Quer ver o mar? Em seguida, voltou ao volante e saiu como um foguete entre os carros, apitando, cantando pneu, reza, reza, pai nosso que estais nos céus, santificado seja o vosso nome, senhor, eu esqueci o resto, faltei a missa porque tinha que vender balas no sinal. E agora, como continuo?

O velho criou asas, atravessou estradas, pontes e desembocou como um rio no mar. Antes de tudo, me pegou pelo braço como se fosse o dono de tudo e foi dizendo:

– E aquele dinheiro todo que te dei, e todas as vezes que você se deitou comigo, esqueceu tudo por conta de uma vontade bizarra de ver esta porcaria de mar? Responde!

A noite fria do vento que bate na beira da praia silenciou tudo.

Foi o tempo.

– Desce! Aí está o mar!

Saí do carro assustada, sem expressão, sem acreditar que o mar era mesmo o mar, fui andando pela areia sem olhar para trás, sem olhar para a frente, a escuridão era tomada pelo barulho das ondas, tateava com os pés que me guiavam até a arrebentação. Era o encontro mais doloroso que pudesse imaginar.

Só a música chegava perto dos sonhos agora “Se Deus soubesse / da tristeza lá da serra/ mandaria lá pra cima / todo o amor que há na terra…” Antes de cair, no mar, de entrar como quem entra no mundo, com o peito fechado para abrir quando o amor chegar, como quem se transporta. Tirei primeiro a camisa, depois a sandália de dedo, aos poucos fui tirando o resto bem devagar, como quem reza uma oração.

Virgem Maria cheia de graça, o Senhor é convosco…”

Nua.

 Sem que a vida pudesse me vestir de alguma dignidade.

Sozinha.

Mergulhei, mergulhei.

Sorrindo.

 E rindo alto.

O velho ficou para trás, dono da agonia, dono desta amplitude de desilusões.

À ele, o mundo que merece!

Este inferno que se apresenta a cada dia.

À mim, esta vitória!

Mesmo que possa parecer dor.

– Engole a gente, é?

***

Alex Andrade é escritor e arte-educador. Publicou dez livros até o momento, os infantis O pequeno Hamlet , A galinha malcriada , A história do menino , A menina e a sapatilha e o menino e a chuteira , os livros de contos A suspeita da imperfeição, Poema, Amores, truques e outras versões, As horas e os romances Longe dos olhos e Antes que Deus me esqueça. Participou da coletânea Perdidas, histórias para crianças que não tem vez e publicou crônicas e contos em diversas revistas literárias. Andrade faz parte do projeto de incentivo à leitura Praça da leitura e é um dos curadores dos textos do Prêmio literário do Ensino fundamental no Rio de Janeiro. Blog: http://www.alexlivrosearte.blogspot.com.br

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