Entrevista lide liquido

Divina Supernova reverencia Mutantes com releituras de clássicos em show no Centro Cultural Arte Pajuçara

O show Divina Supernova ou Qualquer Bobagem chega com força a sua sexta edição, cativando o público no último sábado (10/8)

Foto: Sousandré

Desfilando um repertório que mescla músicas marcantes dos cinco primeiros discos da banda Os Mutantes, a Divina Supernova apresentou, para um público que compareceu em grande número ao Teatro do Centro Cultural Arte Pajuçara, o show Divina Supernova ou Qualquer Bobagem. O título vem da música homônima, composta por Tom Zé e gravada pelos Mutantes, em 1970.

A Divina Supernova tem uma década de existência, dois álbuns lançados (Pulsares e Torus, respectivamente lançados em 2014 e 2015) e com participações em várias coletâneas no Brasil e no mundo. O duo é composto pela cantora, instrumentista e instrutora de canto paulistana, Ana Galganni (flauta e vocal) e pelo músico e compositor alagoano, Júnior Bocão (baixo e vocal), e já realizou turnês internacionais, apresentando-se na França, Suíça, Estados Unidos e Japão.

Admiradores confessos de Os Mutantes, em 2013 o duo apresentou pela primeira vez esse show no palco do Sesc Poço. Nas edições seguintes se apresentaram no Cuscuzeria Café e Rex Bar, sempre com músicos convidados.

Em função do edital Pauta Aberta, projeto da Prefeitura de Maceió e executado por meio da Fundação Municipal de Ação Cultural (FMAC), que tem como objetivo ocupar o espaço do Centro Cultural Arte Pajuçara, pela primeira vez a banda se apresentou no local.

Dessa vez, a Divina Supernova se reuniu com os músicos Léo Bulhões (percussão) (Unidade Nova Praia, Temperado e Mel Nascimento), Pedro Salvador (guitarra e vocal) (Necro) e Thiago Alef (bateria e vocal) (Necro e Barba de Gato) para uma noite de celebração a uma das lendárias e mais representativas bandas de rock do Brasil e mesmo do mundo, com fãs do porte de David Byrne, Kurt Cobain e Sean Lennon.

O show

Iniciando pontualmente às 20h, o show contou com uma hora e meia de duração. A banda encontrou um público receptivo e participativo, fazendo coro em diversos momentos, como, por exemplo, na música Balada do Louco.

Foto: Sousandré

Mesmo sendo fiéis aos arranjos originais, com a Divina Supernova as melodias dos Mutantes ganham novas possibilidades de escuta. A ausência do teclado em músicas como Top Top e do piano em Balada do Louco sequer é percebida, com baixo e guitarra conciliando com presteza as harmonias. Ana Galganni, Júnior Bocão e Pedro Salvador se revezaram com desenvoltura nos vocais e, com Thiago Alef fazendo o backing vocal, construiram com competência as harmonizações vocais, como em Le premier bonheur du jour, Minha Menina e Panis et Circensis. Destaque também para diálogo entre baixo, bateria e percussão, marcando forte o samba rock Minha Menina (música de Jorge Ben que os Mutantes gravaram em seu primeiro álbum, de 1968) e em Bat Macumba, música que serviu como deixa para Ana Galganni apresentar os músicos.

Foto: Sousandré

Com uma banda madura e entrosada no palco, o show foi marcado com poucas pausas e diálogos com o público e muito mais música. Os músicos demonstravam estar muito a vontade e conseguiram, combinando irreverência e competência, cativar o público para o universo particular que é cada uma das canções dos Mutantes.

No set list de sábado, que teve direito a dois bis, a banda apresentou dezoito músicas selecionadas dos cinco primeiros álbuns dos Mutantes, entre 1968 e 1972.

Set list:

Panis et circensis (Os Mutantes (1968))
Ando meio desligado (A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado (1970)
Virginia (Jardim Elétrico (1971)
2001 (Mutantes (1969))
Baby (Os Mutantes (1968) e (Jardim Elétrico (1971))

Não vá se perder por aí (Mutantes (1969))
Qualquer bobagem (Mutantes (1969)
Le premier bonheur du jour (Os Mutantes (1968))
Portugal de navio (Jardim Elétrico (1971)
It’s very nice pra xuxu (Jardim Elétrico (1971)
Balada do louco (Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets (1972)
Minha menina (Os Mutantes (1968))

Top top (Jardim Elétrico (1971)
O jardim elétrico (Jardim Elétrico (1971))
A hora e a vez do cabelo nascer (Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets (1972)
Cantor de mambo (Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets (1972))
Posso perder minha mulher, Minha Mãe, Desde que Eu Tenha o Rock and Roll (Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets (1972))
Bat macumba (Os Mutantes (1968))

Bis 1 – Ando meio desligado
Bis 2 – Panis et circensis


Antes da passagem de som realizamos uma entrevista com Ana Galganni, Júnior Bocão e Thiago Alef. Confira a seguir o bate papo sobre Mutantes, liberdade criativa e mais Mutantes!


Quando e como surgiu a ideia fazer um tributo a Mutantes?

Ana Galganni – A ideia surgiu em 2013 e esse show já está na sexta edição. A gente começou no Sesc Poço, depois fizemos no Rex e agora é a primeira vez que a gente faz aqui, no Centro Cultural Arte Pajuçara.

Quais músicas não podem faltar no show?

Júnior Bocão – Nós fazemos um apanhado de músicas de vários discos, com exceção da fase mais progressiva, porque temos uma formação mais enxuta. A gente priorizou as músicas mais da primeira fase dos Mutantes.

Ana GalganniAndo meio desligado, Top top, 2001, Minha menina

Júnior Bocão e Ana Galganni. Foto: Sousandré

Como foi o processo de criação dos arranjos para as releituras?

Júnior Bocão – A gente está tocando baseado nos arranjos originais, mas também tomamos a liberdade de em cada música de imprimir a nossa assinatura.

Thiago Alef – O legal é que a gente já tinha feito outros dois shows e foi bom para montar algumas coisas, como fazer a brincadeira com o kazoo, um instrumento um pouquinho diferente e que substituiu um pouco os metais (em Panis et circenses), já que não temos nessa formação. A criação dos arranjos foi bem natural. Todo mundo é muito fã e a gente ouve desde sempre Mutantes. Assim foi fácil conectar uma coisa com a outra e ter as ideias de maneira coletiva.

Qual a percepção de vocês sobre importância dos Mutantes para a música brasileira?

Ana Galganni – Contribuição criativa, de que nós podemos ser livres e tocarmos da maneira que a gente quiser, da gente poder se expressar de uma maneira tranquila e relaxada no palco. Esse repertório todo voou para o mundo. Uma das referências que o pessoal tem lá fora do Brasil também é de Mutantes, então é um prazer poder tocar essas músicas.

Júnior Bocão – … E só pra complementar, Ana. Esteticamente acho que Os Mutantes é uma banda que não tem precedentes no mundo. Eles reuniram com a guitarra do rock e a música brasileira, flertam com a bossa nova, com o tango, com vários ritmos diferentes. Rogério Duprat, quando desenvolveu os arranjos dos discos deles também colocou ali a parte mais erudita, com orquestrações, samples… É uma banda muito moderna para a época.

Ana Galganni – E todo mundo tem influência de Mutantes aqui. Eu tinha uma banda em São Paulo chamada Expresso Monofônico, nós lançamos pela Baratos Afins, e era uma banda completamente inspirada no tropicalismo. O Bocão veio do Mopho, Casa Flutuante… o Pedrinho (guitarrista Pedro Salvador) e o Alef com a Necro. Todo mundo muito influenciado. O Léo Bulhões também.

Júnior Bocão – E tem uma coisa que pouca gente se atenta para falar ou discutir. Os Mutantes é uma banda de virtuoses. Eles eram grandes músicos. Sérgio e Arnaldo filhos de uma pianista que foi a primeira pianista de uma orquestra de São Paulo. Eram grandes músicos mesmo. E músicos que entraram depois, como Liminha, sempre mantiveram um nível muito alto.

Ana Galganni – E a Rita, que nos Mutantes já voava e depois dos Mutantes voou mais ainda com Tutti Frutti, com as letras, o modo de cantar super rock n’ roll.

Thiago Alef – Putz. É um grande marco. Pra mim acho que é quase como o marco zero do rock nacional, na minha opinião. Os Mutantes, junto com Gilberto Gil e Caetano e todo o movimento da Tropicália, deram um toque de originalidade fantástico. Deram um toque brasileiro. Como os Novos Baianos também, sabe? É o rock puro brasileiro. O que foi feito no final dos anos 60 e nos anos 70 com essas bandas. Putz. São fundamentais 100% para tudo o que a gente ouve hoje. Não falando das bandas que estão no mainstream, mas bandas como Boogarins, The Baggios, sabe? Você vai ouvir essa galera e todo mundo puxa dali, né? Vem do mesmo lugar porque é a nossa origem mesmo.

Mutantes, assim como Ave Sangria e mesmo Zé Ramalho no disco Paebiru, por exemplo, representam uma linha dentro da psicodelia no Brasil que se utiliza, além de efeitos, elementos percussivos. Thiago, qual a sua percepção sobre o uso da percussão nas músicas dos Mutantes?

Léo Bulhões, Ana Galganni e Pedro Salvador. Foto: Sousandré.

Thiago Alef – Acho que quase que vital, sabe? Principalmente nos Mutantes. Dá uma outra vida. Por exemplo: o primeiro show que a gente fez foi sem percussão e o segundo foi a primeira coisa que eu falei. – Gente, vamos colocar uma “percussa”. É tão vital quanto a guitarra de Sérgio Dias. Não dá pra fazer Bat macumba sem aqueles tambores, sem ter as congas; Cantor de Mambo… Então está muito conectado. Na outra edição a gente não pode fazer com o tecladista e funcionou. E particularmente eu acho que funcionou até mais por conta da percussão. Foi um casamento perfeito. E na música psicodélica. Putz! É muito vital, principalmente na brasileira, porque é da nossa origem esse uso da percussão em outros estilos, como no chorinho, no samba, obviamente, na música negra que a gente incorpora. É muito fundamental. Como baterista eu adoro, porque tenho alguém para conversar mais na cozinha.

Vocês acompanham o trabalho do trio (Rita, Sergio e Arnaldo) pós Mutantes?

Júnior Bocão – Sim. Inclusive eu tive dois encontros com Sérgio Dias, na casa dele. Isso em 2006, 2007. Ele ia produzir o segundo disco da Casa Flutuante. Cheguei a levar o Billy Magno e o Hélio Pisca, do Mopho, pra casa dele e a gente tocou com ele músicas dos Mutantes e da Casa Flutuante. Ficou naquele papo ali… e depois eu encontrei com ele num festival que eu toquei lá no sul, no Paraná, chamado Psicodália e… eles estão tão presentes que eu continuo seguindo todos eles e, inclusive, a atual formação. No segundo disco da Divina Supernova (Torus) tem participação da Esmeria Bulgari, que é a cantora dos Mutantes atual e…

Ana Galganni – … e do Vinícius…

Júnior Bocão – … e do Vinícius Junqueira, que é o baixista que já está com eles há bastante tempo, desde a carreira solo do Sérgio Dias. Foi por causa da volta dos Mutantes que ele (Sérgio Dias) não produziu o segundo disco da Casa Flutuante, porque a gente estava nesse processo de conversar sobre a produção, aí pintou o convite para eles tocarem no Barbican Theatre, em Londres. O papo meio que morreu, porque ele se dedicou de cabeça com a volta da banda, lançaram o disco e DVD, na sequência. Fizeram turnê com aquela formação, com a Zélia Duncan.

Thiago Alef – Cara, eu sou apaixonado pela Rita Lee. Sou louco pela Rita Lee. Acho que se eu encontrar ela um dia na minha frente assim… eu acho que não tenho estrutura emocional para encontrar a Rita Lee. (risos). Ela é carreira mais sólida pós mutantes. No começo ela meio que teve que se provar, porque tiraram ela da banda. E ela foi a que se provou e tem uma carreira espetacular. Uma letrista incrível. A contribuição dela para o rock brasileiro é tão grande quanto a dos Mutantes, ou até um pouco maior. Ela foi para o rock n’ roll mais clássico, aquela coisa mais Stones e tal. Eu também gosto muito do disco Lóki, do Arnaldo. Gosto dos discos solo dele. Patrulha do Espaço. Que é um bom disco também. E gosto muito do primeiro disco do Sérgio Dias, com participação de Gal Costa.

O que acharam do retorno da banda, em 2006?

Thiago Alef – Ah. Eu fiquei maluco. Foi uma época em que eu estava ouvindo Mutantes e pirando. Acho que eu fiquei uns três anos internado e só ouvindo Mutantes, que nem louco. (risos). Eu tive a oportunidade de assisti-los, já sem a Zélia, acho que em 2009, em Aracaju. Eu fiquei lá tietando, gritando “Sérgio!” (risos). Eu sempre falo dessas bandas que acabam. Pros caras voltarem é só preciso estar vivo, por mais treta que tenha. Até o Guns n’ roses, que os caras não podiam estar no mesmo lugar, voltaram. É possível! Enquanto tem bambu, tem flecha.

Ana Galganni – O que é muito interessante é como a banda se multiplicou, né? Quantos músicos precisam estar ali em cima do palco para executar as músicas dos Mutantes. Essa volta também mostrou pra gente visualmente como os arranjos são complexos, como existe muita criatividade ali… e como é possível também, apesar de tudo isso, executar ao vivo.

Júnior Bocão – E mostrou também outros bons músicos, como Vitor Trida, por exemplo. É um grande músico toca guitarra, piano, flauta, canta muito. Para quem é fã a volta da banda foi uma maravilha. Inclusive a gente viu o show deles em São Paulo, que foi o primeiro show que eles fizeram depois do show de Londres. Foi no Parque da Independência. Teve Tom Zé, Nação Zumbi e Os Mutantes.

Ana Galganni – Foi maravilhoso.

Júnior Bocão – Embaixo de muita chuva e a gente não arredou o pé (risos).

Ana Galganni – E a escolha da Zélia foi polêmica, mas porque essa é que é a natureza dos Mutantes mesmo. Por que chamar alguém que poderia cantar agudo como a Rita pra ficar naquela comparação ferrenha. Preferiram realmente, no maior clima Mutantes, sair dessa comparação para levarem uma contralto pra formação…

Júnior Bocão – … Eu confesso que na época eu não gostei muito dessa ideia.

Ana Galganni – Eu também não gostei na hora, mas depois eu comecei a refletir e falei: – Não. Acho que essa também é a vibe dos Mutantes.

Esmeria Bulgari e Sérgio Dias. Foto: Clarissa Lambert/Divulgação

Júnior Bocão – Eu já sacava a Esmeria Bulgari desde aquela época, então pra mim foi meio que uma traição do Sérgio Dias, ter colocado a Zélia. Uma coisa mais mercadológica do que de mérito mesmo. A música que a Esmeria participa de nosso disco (Torus) se chama Amaré. Eu recomendaria até as pessoas que não conhecem darem uma escutada lá. Da metade para o final da música ela entra e arrasa.

Qual música ou disco dos Mutantes é mais representativo para vocês?

Júnior Bocão – Rapaz. É uma pergunta difícil. Eu não tenho como dizer. Cada disco tem uma atmosfera, mas talvez o primeiro (de 1968), por ser o rebento, que causou impacto na época, no mercado, no meio da música. Todo mundo ficou: “- Pô, esses meninos aí”. Eles eram muito jovens, né?

Ana GalganniTecnicolor! Eu amo Tecnicolor. Eu amo It’s very nice pra xuxu por causa dos vocais. São lindos. O Tudo foi feito pelo sol… É maravilhoso também.

Thiago Alef – O disco Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets. Acho fantástico, porque ele tem a alma dos dois primeiros discos, as percussões etc, e já canta a bola do que eles iam seguir mais a frente, com a fase progressiva. Com a música que é o nome do disco, que é uma música que já tem a vibe do O A e o Z, do Ao Vivo, do Tudo Foi Feito Pelo Sol.

1 comentário em “Divina Supernova reverencia Mutantes com releituras de clássicos em show no Centro Cultural Arte Pajuçara

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