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Baden Powell, 82 anos

Baden Powell de Aquino nasceu na cidade de Varre – Sai, município do Rio de Janeiro, no dia 6 de agosto de 1937. Compositor, arranjador, cantor e instrumentista, Baden Powell é considerado um dos maiores gênios e virtuoses que o violão mundial conheceu, misturando samba, melodias de choro, elementos jazzísticos, ritmos afro-brasileiros e contrapontos bachianos (ITAÚ CULTURAL, 2019).

Influenciado por nomes como Dilermando Reis, Garoto, Pixinguinha, Bach, entre outros, criou um estilo próprio. Segundo o filho e também instrumentista Philippe Baden Powell, o violonista “rompe as barreiras que separam a música erudita da música popular, trazendo consigo as raízes afro-brasileiras e o regional brasileiro”.

Foto: Fernando Krieger // IMS


Para o produtor musical, poeta e compositor brasileiro, Herminio Bello de Carvalho, Baden e seu violão traduzem o Brasil, a sonoridade brasileira:

Ele, ao mesmo tempo, é índio, europeu (a nossa influência europeia), caboclo, africano. Seu violão traduz toda essa coisa que é nossa miscigenação, a nossa cor de pele, de olho […] Baden é uma escola. Ele sozinho é uma grande universidade do violão brasileiro (GUITER. 2003).  

Dos oito aos treze anos foi aluno de Jayme Florence, o Meira, violonista e professor de outros tantos, como Raphael Rabello e Mauricio Carrilho. Nesse período, interpretando Magoado, composição do violonista Dilermando Reis, ganhou o Primeiro Lugar no programa Papel carbono, da Rádio Nacional. Por influência de Meira chegou a conhecer os principais músicos de samba e choro da época, tais como Pixinguinha, Donga e Ismael Silva.

Seu primeiro grande sucesso como compositor foi Samba triste, composto em 1956, em parceria com Billy Blanco e lançado por Lúcio Alves no álbum A Bossa é nossa, de 1961, pela gravadora Philips.
Em novembro de 1963 mudou-se para Paris e já no ano seguinte assinou contrato com o selo Barclay para a gravação de seis LPs. Foi início de uma carreira artística bem sucedida na Europa. A partir dela ganhou reconhecimento mundial, sendo respeitado e reverenciado por sua musicalidade e genialidade. Um exemplo disso é que o seu primeiro disco com a Barclay, Le Monde Musical de Baden Powell, produzido por Jacques Lubin e lançado em 1964, recebeu o Disco de Ouro na França. O LP consta de doze faixas e, entre elas, seu primeiro grande sucesso no Brasil: Samba Triste.

Em 2000, gravou seu último disco, “Lembranças”, com onze faixas e contendo quatro novos choros. Proustiando em seu violão, Baden passeia por Pastorinhas, marcha rancho de 1938 composta por Noel Rosa e Braguinha e Dora, de Dorival Caymmi. Destaque para a terceira faixa, Molambo, composta por ninguém menos de que o seu primeiro professor de violão e grande mestre, Meira, que escreveu a música em 1953 em parceria com Augusto Mesquita. O disco se encerra com uma das famosas parcerias entre Baden e Vinícius, a composição O Astronauta. Será que por acaso // A flor sabe que é flor // E a estrela Vênus // Sabe ao menos // Porque brilha mais bonita, amor.  

Produzido por Fernando Faro para o selo Trama, o disco foi lançado nesse mesmo ano, logo após a sua morte, que ocorreu em 29 de setembro.

Os Afro-Sambas, de Baden e Vinícius

“[…] o disco os Afro-Sambas […] realizou um novo sincretismo, deu uma dimensão mais universal ao candomblé afro-brasileiro” (Vinícius de Moraes)

O primeiro encontro entre Baden e Vinícius ocorreu em meados de 1960, quando o violonista tinha cerca de 23 anos. Na ocasião, Baden tinha se apresentado na boate Arpège, no Leme. Na plateia, o poeta Vinicius de Moraes, que ficou impressionado com a performance do jovem violonista. Segundo Vinicius, em encarte do disco “Baden Powell”, da série da Abril Cultural “Música popular brasileira”: “Quando o conjunto retomou as danças, vi alguém se aproximar dos músicos e, dentro em pouco, a sala se enchia de sons de improviso de jazz em guitarra elétrica. Era Baden e ele estava com a cachorra, fazendo misérias no instrumento”.

Nos cinco anos que seguem, Baden e Vinicius desenvolveram muitas parcerias, como Samba em Prelúdio, Formosa, Deixa, Samba da Benção. Oito músicas que a dupla compôs entre 1962 e 1965 foram reunidas num disco que se tornou um divisor de águas na música brasileira. Em janeiro de 1966, com a produção e direção artística de Roberto Quartin e Wadi Gebara, os arranjos e regência do Maestro César Guerra-Peixe e a participação do Quarteto em Cy, gravaram o LP Os Afro-sambas.

O disco é reverenciado por diversos nomes da música brasileira contemporânea, com regravações e ressonâncias em nomes como Mônica Salmaso e Paulo Bellineti, Virginia Rodrigues, Kiko Dinucci, Hamilton de Holanda e Diogo Nogueira e muitos outros.

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Acervo Baden Powell

O acervo Baden Powell, cedido em comodato ao Instituto Moreira Salles em 2012, contém uma variedade de documentos, entre os quais partituras, métodos, fotografias, livros, cartazes, desenhos artísticos, discos etc. Desde agosto de 2017, por ocasião dos 80 anos de nascimento de Baden Powell, seu acervo está disponível para consulta no endereço baden.ims.com.br.

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