poesia

Inverno Dublinense e Estrangeiro de mim, de Leonardo Cattoni

Inverno Dublinense

Da janela se vê o cinza,
o dourado do sol a nos rasgar,
o céu coberto e desnudo,
o verde a se negar.

Da janela se vê a mulher apressada,
o gato saltando o muro,
o homem a fumar,
a criança ruiva em apuro.

Da janela se vê o breu do dia,
a luz da noite nos cortejando,
o tempo a escorrer,
a vida se rastejando.

Da janela se ouve o vento a correr,
a queda da chuva sem pesar
os últimos latidos das máquinas,
e as primeiras vogais do anoitecer.

***

Estrangeiro de mim

Dentro de mim existe
alguém querendo acolher
gente alegre e triste

uma coragem desarmada,
o medo bobo de uma criança

uma cidade à meia-noite acordada
mar agitado numa esperança

Dentro de mim finge,
três, mil vezes
que é aquilo que por fora existe.

***

Leonardo Cattoni nasceu em 1980, na cidade de Curitiba/PR. Morou fora por 4 anos –Dublin e Paris. Atualmente reside em Belo Horizonte/MG, onde atua como tradutor e professor de Língua Inglesa. Teve poemas publicados em duas revistas, e uma crônica num jornal de grande circulação da capital mineira. Acredita na escrita como o açougueiro na lamina afiada da faca: um tem o poder de cortar a alma, o outro, a carne; ambos, sangram. Escreve para si mesmo, seu fármaco. Escreve para não enlouquecer.

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