Entrevista lide liquido

O tempo de ser feliz é agora: Uma entrevista com Rodrigo Avelino

Por Ana Cecília da Silva – 10/7/2019

Abra a janela
É o amor
Cheiro de flores no ar
Luz de uma bela manhã
O sol veio só pra te coroar

Foi com esses versos que o cantor e compositor alagoano Rodrigo Avelino abriu o show de lançamento de seu primeiro disco Tempo de Ser Feliz, no palco do Teatro Deodoro, em Maceió, no último dia 3 de julho de 2019. Sob o olhar atento e emocionado da plateia, Avelino apresentou um repertório autoral que reúne tanto canções inéditas quanto outras já apresentadas para o público em festivais de música entre os anos 2007 e 2018, como Tão Leve, Budapeste e Passista.

Foto: Tony Admond

Com forte influência da MPB, Blues, Jazz, Samba e de alguns ritmos latinos, o trabalho do artista busca transmitir uma mensagem sobre o amor, felicidade e a busca pelo bem.

A música começou a fazer parte da sua vida ainda na infância, quando começou a se apresentar em concursos de calouros na escola. Porém o sonho só veio a ganhar forma a partir de 2007, quando passou a participar de festivais tais como o Festival de Música do Sesc (Femusesc), Festival de Música da Universidade Federal de Alagoas (Femufal), Festival de Música de Maringá (Femusic), II Encantos e III Encantos. Neste último, em 2018, Rodrigo teve a música Altiva premiada na categoria Melhor Arranjo.

Um dos momentos mais marcantes de sua trajetória foi o Femusesc, em 2009. O artista confessa que sempre teve vontade de participar do festival, mas não acreditava que sua música pudesse ser escolhida. Para sua feliz surpresa, a canção Tão Leve foi premiada como a melhor música do Festival daquele ano. Esse momento representou para ele um divisor de águas que lhe deu o combustível que precisava para acreditar em si mesmo e seguir o sonho da música. Avelino também coleciona outras premiações como no Femufal, de 2010, com a música Budapeste e o III Encantos, em 2018, com a música Altiva, escolhida como melhor arranjo musical.

Um fato curioso que o Rodrigo Avelino destaca é que em muitos momentos de dificuldade pensou em desistir da carreira de músico, mas graças a uma mensagem (via whatsapp) de apoio do cantor Djavan decidiu seguir em frente. Hoje celebrando 12 anos de carreira, ele afirma que se sente realizado, principalmente por ter lançado seu primeiro disco no palco do Teatro Deodoro, o que representa a realização de um sonho e o resultado de muito esforço ao longo dos anos. Nessa trajetória, diversos músicos convidados contribuíram com esse Tempo de Ser Feliz e estiveram junto com o cantor alagoano no dia 3 de julho: Bruno Palagani (bandolim), Wilbert Fialho (guitarra), Débora Borges e Júnior Oliveira (violinos) e as cantoras Lousanne Azevedo, Kel Monalisa, Fernanda Guimarães e May Honorato.


Confira agora a entrevista que Rodrigo Avelino concedeu ao blog Arribação. Ele conta um pouco de sua trajetória, os desafios da carreira e sobre o lançamento de seu primeiro disco.

***

Como foi seu início na música? Em que ano tudo começou?

As primeiras lembranças que tenho são das festas de escola. Eu me lembro que na 1ª série estudava em uma escola no bairro do Vergel (Maceió-AL) e minha turma ia fazer uma excursão para a fábrica da Coca Cola. No local teve um concurso de calouros com os alunos e eu fui o primeiro a levantar a mão para participar. Eu e mais três colegas cantamos e ganhamos o prêmio. Sempre que tinha alguma coisa na escola relacionada a música, eu estava envolvido. Mas o ano em que tudo começou mesmo foi em 2000, quando comecei a compor. Porém na época eu não tinha nenhum instrumento e não sabia tocar nada, sempre dependia de alguém para cifrar as músicas. Então sempre pegava o violão de um amigo emprestado e ficava tentando aprender. Só em 2001 ganhei meu primeiro violão de presente da minha mãe e foi a partir daí que comecei a me desenvolver na música, passei a escrever mais e a ouvir outras coisas, o que influenciou demais na maneira como eu escrevia.

Em que festivais de música você já se apresentou? Foi esse o início da sua carreira?

Eu tenho como pontapé da minha carreira o primeiro festival de música que participei em 2007. De lá para cá já contabilizo a participação em 10 festivais, somando 12 anos de carreira. Em 2007, 2008, 2009 e 2010, participei do Festival de Música do Sesc (Femusesc). No ano de 2007 com um samba chamado Passista (que está no disco), em 2008 com outro samba chamado Real e, em 2009, com duas músicas: Pra Você e Tão Leve. Essa última está no disco e foi escolhida como música campeã do festival.
Ainda em 2009 fui para Maringá apresentar a música Tão Leve em um festival muito bacana, o Femusic e também me apresentei no Festival de Música da Universidade Federal de Alagoas (Femufal), com a música Rota.
Em 2010 levei a música Budapeste para o segundo Femufal que participei. Nesse ano não pude participar cantando, então um amigo defendeu a música e ele foi escolhido como melhor intérprete e a minha música foi campeã do festival naquele ano. No ano de 2012 voltei a participar do Femufal com a música Unilateral, que também está no disco.
Eu voltei a participar de festivais só em 2017, que foi o II Encantos, com a música Prece, e, em 2018, do III Encantos com a música Altiva. Inclusive fomos premiados com essa música na categoria Melhor Arranjo.

Suas músicas têm sonoridade de jazz, MPB, samba. Quais suas maiores inspirações? Quem até hoje influencia seu trabalho como cantor e compositor?

Desde que comecei a estudar violão já escutei muita coisa. Djavan sempre esteve presente nos meus estudos, assim como Lenine, João Bosco, Milton Nascimento e Gilberto Gil. Dos últimos anos para cá tenho escutado muita coisa que não está na grande mídia e que não tem muita visibilidade, mas que tem uma importância absurda para música e para minha formação, como um compositor de Petrolina, Zé Manoel e a banda 5 a seco.
Outro artista que me inspira muito é Richard Bona, contrabaixista camaronês e Esperanza Spalding, contrabaixista e cantora de jazz dos EUA. Também escuto Sérgio Santos e Mônica Salmaso, mestres da Bossa Nova e o maestro Moacir Santos que foi professor de grandes artistas da Bossa Nova. Dos alagoanos escuto muito Júnior Almeida, Fernanda Guimarães, Kel Monalisa. A galera de Alagoas está sempre produzindo muita coisa bacana e eu procuro ouvir e acompanhar.

Ao longo de todos esses anos, que momento você destacaria como marcante na sua carreira?

Até o dia 3 de julho de 2019 eu tinha um momento marcante que foi o Femusesc de 2009 com a escolha da minha música, Tão Leve, como campeã do festival. Isso porque eu sempre tive vontade de participar do Femusesc, mas achava que minha música não seria escolhida. Mesmo assim, resolvi arriscar. Eu lembro que nesse dia tinham 18 mil pessoas em Jaraguá assistindo ao show. Eu estava no backstage quando saiu o resultado de que minha música tinha sido escolhida e eu teria que voltar novamente ao palco para cantá-la.
Na primeira vez que fui defender, eu não tinha noção da quantidade de gente que tinha lá de tão focado que eu estava na apresentação, mas quando eu voltei e vi aquela multidão eu não sabia se ria ou chorava. O encerramento do festival foi com um show do Jorge Vercillo e ele conversou comigo e me parabenizou publicamente. Foi um momento muito marcante.
Mas o dia que lancei meu disco no palco do Teatro Deodoro foi, sem dúvida, a realização de um sonho. Então eu não tenho só um, mas dois momentos marcantes.

Foto: Rodrigo Brandão

O palco do Teatro Deodoro é um sonho para muitos artistas. Como surgiu essa oportunidade de se apresentar lá?

Com a abertura do edital do “Teatro é o maior barato”, eu vi a possibilidade de me apresentar no palco do Deodoro e lançar meu disco lá. Então me organizei para participar, me inscrevi e torci para que meu projeto fosse selecionado, pois eu sentia que aquele era o momento. Por muitos anos pensei nisso e confesso que sentia medo pela grandiosidade do teatro e por toda a energia que ele carrega.
Eu já tinha participado de duas edições do projeto Quintas no Arena (espaço anexo ao Deodoro), mas eu sabia que precisava fazer um show naquele palco, principalmente para marcar o encerramento da campanha de financiamento coletivo que lançamos nas redes sociais. Foi, de fato, a realização de um sonho.

O seu disco “Tempo de ser feliz” é a coroação desse trabalho. Conta para nós um pouco como é essa sensação

Foto: Stéfany Caldas

.

O Tempo de Ser Feliz nasceu em 2017 na minha primeira participação no projeto Quintas no Arena. Íamos gravar esse trabalho lá, ao vivo, só que por algum motivo não era o dia, pois tivemos um problema na gravação. A primeira música foi gravada, mas as demais não conseguimos gravar e eu só soube disso no final do show. A banda passou o show tentando resolver, mas no fim me deram a notícia de que não tinham conseguido.
Uma semana após o ocorrido, nosso baixista Fabinho Oliveira propôs que refizéssemos o show. Fui pego de surpresa, mas não tive o que pensar, pois foi uma demonstração de carinho enorme. O show tinha acontecido em outubro e nós gravamos em novembro. As 10 primeiras músicas do disco tinham sido gravadas das 18h às 00h. Todos tocando juntos, o que não é muito comum. Normalmente você grava um por vez.


Em 2018 fomos amadurecendo a ideia do trabalho. Eu achei que não ia conseguir e em determinado momento me senti meio desmotivado por diversas questões e estava voltando ao mercado de trabalho, mas em agosto de 2018 eu saí do emprego que eu estava e decidi que precisava tocar o projeto para frente.
Uma das coisas que me incentivou muito foi uma mensagem que recebi através de uma amiga que é sobrinha do Djavan. Confessei para ela que estava desmotivado e ela contou para o tio e ele prontamente me mandou uma mensagem de incentivo. Aquilo foi muito impactante, me senti muito motivado.
Lançamos então uma campanha de financiamento coletivo logo após um show que fiz em setembro de 2018, o Rodrigo Avelino Convida, e, em dezembro, encerramos a campanha. Finalizamos algumas gravações que tínhamos pendentes, refizemos algumas coisas e em maio lançamos o disco. Eu costumo falar que a melhor parte de todo o processo foi perceber a união de todo mundo, dos músicos, das pessoas da parte técnica e das pessoas que incentivaram e abraçaram o sonho. Foi um trabalho feito por várias mãos e várias mentes.

Os convidados do seu show tiveram uma participação especial em algum momento de sua carreira?

Todos eles tiveram uma participação especial na minha trajetória. A Fernanda Guimarães conheci em 2009 quando liguei para ela para pedir autorização para cantar uma música que estava no disco dela e que eu gostava muito, chamada Verbo Livre. Ela me tratou super bem e disse que eu ficasse à vontade para cantar. Eu já a admirava como artista e passei a admirar como pessoa. Alguns anos depois nos conhecemos pessoalmente e hoje somos muito amigos.
Bruno Palagani eu conheço há 8 anos. Participamos de festivais juntos, é uma amizade que veio crescendo e é um cara que tenho maior respeito e admiração. O Wilbert Fialho, que faz uma participação com as guitarras, eu o assistia de longe e tinha um sonho muito grande de tê-lo em algum momento e surgiu essa oportunidade. Um cara extremamente inteligente e sensível.

Rodrigo Avelino e Kel Monalisa.
Foto: Berg Dantas

O Júnior Oliveira e a Débora Borges eu conheci no III Encantos, em 2018, quando um amigo sugeriu colocar uns violinos na música Altiva. Foram dois presentes maravilhosos que a música me deu. O violino que está na música Faltar é da Débora.
Com a May Honorato tenho um companheirismo e uma sintonia muito boa. Ela está gravando seu disco autoral e tem duas músicas nossas que estarão no disco.
O primeiro contato que tive com a Kel Monalisa foi quando eu trabalhava em uma empresa de telefonia. Eu a atendi e ela me disse que era cantora e eu disse que também era. Fui descobrindo o trabalho dela e ela o meu e hoje ela é uma irmã para mim.
A Lousanne Azevedo conheço há 4 anos e já trabalhamos muito juntos. Ela é uma pessoa muito talentosa e eu estou no pé dela para que ela grave o disco, ela precisa mostrar esse trabalho para o mundo.

.

Para você, qual é esse “tempo de ser feliz”?

Esse tempo de ser feliz é hoje, é amanhã, ele tem que ser uma busca constante. É o acordar pela manhã e agradecer por acordar. Agradecer pelo alimento que temos na mesa, pensar nos irmãos que nesse momento não tem o que comer. Não só pensar, mas tentar fazer algo para mudar. O pouco que fazemos, junto com o pouco do outro a gente termina criando uma corrente que chega e faz acontecer. É você sair de casa pensando em como vai transformar o seu dia. Como vai transformar o dia do próximo. Essa busca pelo bem, essa busca pelo pensamento positivo mesmo diante de tantas coisas tristes que vem acontecendo. Todo dia tem que ser o tempo, o tempo é diário. É o agora. Lembro muito da música do Gil: “O melhor lugar do mundo é aqui e agora”.

O destino a fez jornalista, afinal a única coisa que sabe fazer bem é contar estórias. Ela podia estar fazendo terapia para se tornar uma pessoa melhor, mas escolheu o jornalismo como divã para lidar com as aventuras e desventuras da vida. Ana Cecília (Maceió-AL) também é mestranda em Antropologia Social e tem interesse pelo estudo das dinâmicas urbanas e seus significados.

2 comentários em “O tempo de ser feliz é agora: Uma entrevista com Rodrigo Avelino

  1. Pingback: ENSAIO: Glauber Rocha e o Cinema Novo: a revolução em imagem e som – Arribação

  2. Pingback: ENSAIO – Glauber Rocha e o Cinema Novo: a revolução em imagem e som – Arribação

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: