Entrevista lide liquido

Gaitista cearense participa da Expo Harmônica: Uma entrevista com André Reis

Foto: Gabriel Costa

André Reis (CE) começou a se aventurar na gaita em meados de 2005. Quatorze anos depois, o músico e professor de gaita carrega em seu currículo apresentações de destaque em festivais e shows importantes, como Festival de Jazz & Blues de Guaramiranga (2008), Festival Blues do Nordeste (2011), Fórum Harmonicas Brasil (2016), Canoa Blues (2016) e Expo Harmônica (2019). Em sua trajetória, o gaitista cearense integrou bandas como Sinestesia, Bluzzeria, Velhos Abutres e, em 2016, estreou como artista solo, fazendo o Show André Reis & The Gamblers no Fórum Harmonicas Brasil. Com essa banda, que contava com um time seleto de músicos cearenses (Roberto Lessa, na guitarra e vocais; Ednar Pinho, no baixo elétrico e acústico; e Marcelo Holanda, na bateria), Reis pode fazer a direção de um show especial e dedicado a mostrar a gaita e tudo que ela pode fazer com arranjos especialmente pensados para isso.
Com influência direta de gaitistas como Robson Fernandes, Rodrigo Eberiênios, Little Walter, Sonny Boy Williamson II e Ivan Márcio, além de seu trabalho em bandas e em duos com músicos na noite alencarina, o cearense atua também como músico de estúdio e afirma ter buscado se focar muito mais no seu trabalho com o ensino da gaita, assim como eu próprio aperfeiçoamento. Com esse foco, o músico tem procurado tanto estar em constante contato com vários gaitistas a nível nacional, debatendo assuntos mais avançados com músicos experientes, quanto ajudando gaitistas iniciantes seja em aulas presenciais seja com dicas e reviews em seu canal no Youtube.


No dia 22/6, o gaitista cearense participou pela primeira vez do Expo Harmônica, evento que tem como objetivo reunir profissionais relacionados aos instrumentos popularmente conhecidos como gaita e sanfona, mas que tem em comum o nome harmônica. Realizado em todos os sábados de junho de 2019, no Centro Cultural Vila Formosa, em São Paulo, a segunda edição do Expo Harmônica teve como destaque em sua programação, além de apresentações musicais com grandes nomes dos respectivos instrumentos, oficinas sobre técnicas de execução e manutenção, demonstração de equipamentos, exposições de instrumentos raros e atuais, microfones antigos e acessórios e muito mais.
Para André Reis, esse evento representa um divisor de águas para sua trajetória, pela oportunidade de conhecer, trocar figurinhas e tocar junto com feras tais como Sérgio Duarte, Rodrigo Eberiênios, Otávio Castro, Diego Sales, Robson Fernandes, John Harp, Márcio Scialis, Little Will, Geison Cezare e vários outros músicos de renome nacional e internacional.


Confira a entrevista que o Blog Arribação realizou com o gaitista cearense, na qual ele comenta sobre sua participação na Expo Harmônica, destaca os principais caminhos em sua trajetória como músico e professor de gaita e ainda dá dicas para quem pretende se iniciar no instrumento.

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Como surgiu a oportunidade de se apresentar na Expo Harmônica?

Desde que soube do evento fiquei muito empolgado com o acontecimento e procurei ajudar a organização a contatar uma empresa grande Chinesa com a qual tenho parceria hoje em dia. Meu envolvimento com o evento foi uma consequência natural. Sou um grande apaixonado pela gaita e mesmo afastado dos palcos estou sempre envolvido em todos os movimentos que acontecem em prol da sua divulgação e acaba que com o tempo a galera acaba vendo minha paixão em atuar em tudo que dissemina as possibilidades desse instrumento.

Qual a importância desse evento para a sua carreira enquanto gaitista e professor de gaita?

Sem dúvida é imensurável. O mais legal é que eu conhecia todo mundo que participou do evento via redes sociais, mas pela primeira vez pessoalmente. Até mesmo um aluno meu, o Oséias, de Campinas, foi lá pra gente finalmente se conhecer pessoalmente. Mas estar lá, com grandes nomes do instrumento, trocando figurinha o dia todo, sem dúvida representa um divisor de águas pra mim (esse sentimento de euforia de unir tantas pessoas com a mesma paixão era geral em todos os participantes do evento). Lá em SP tive a oportunidade de não só ter contato, mas também tocar com Sérgio Duarte, Rodrigo Eberiênios, Otávio Castro, Diego Sales, Robson Fernandes (aproveitei até meu tempo livre pra pegar aula pessoalmente com ele), John Harp, Emerson Alemão, Klaus Sampaio, Márcio Scialis, Little Will, Geison Cezare. Esses três últimos integram o trio Harmônicos, organizadores do evento e um grupo de grande importância para a gaita a nível nacional.
O carinho com que fui recebido lá por todos é algo que vou levar para o resto da minha vida. Sei que não é meu último encontro com nenhum deles. Tomei um fôlego grande e renovei as energias pra levar meu trabalho para mais lugares.

Quais são os cinco gaitistas que mais influenciam o seu trabalho?

Difícil escolher! Não vou pôr em ordem de importância porque seria impossível pra mim:


Robson Fernandes: Esse cara mudou minha visão do que uma gaita era capaz de fazer. É um showman incrível, impossível de não ser contagiado por ele.
Rodrigo Eberiênios: Foi o primeiro show que vi a diatônica sendo usada em outros estilos que eu sentia que mesmo assim estava sendo tirado todo possível dos recursos do instrumento.
Little Walter: Esse é O Cara. Eletrificou a gaita e basicamente a transformou um instrumento de lead tão potente quanto a guitarra elétrica em um momento de revolução do Blues.
Sonny Boy Williamson II: Maior referência de malandragem na gaita. Quem ouviu sabe do que estou falando.
Ivan Márcio: Esse eu sou suspeito pra falar: já virou um brother. Mas quando assisti sua performance no Fórum Harmônicas aqui em Fortaleza, eu vi tudo que eu queria ser como músico sintetizado em um show: carisma, humor, compreensão incrível do que é blues. E uma gaita matadora!

Sonny Boy Williamson ou Little Walter?

Que maldade ter que escolher! Mas acho que vou de LW, mas é quase como escolher entre a mãe e o pai isso aí (risos).

Sobre gaitistas contemporâneos, quais você mais escuta?

Jason Ricci, Roly Platt, Robson Fernandes, Kim Wilson.

Quais são os principais desafios para o ensino da gaita hoje?

Nossa! São vários! A gaita é um instrumento que exige um período de adaptação e estudo muito grande para tirar todos os recursos delas, inclusive notas básicas. Infelizmente algumas pessoas ainda procuram esse instrumento pensando ser um instrumento mais fácil e muitas vezes se frustram ao descobrir que não é bem assim. Acho que lidar com essas expectativas equivocadas dos alunos ainda é o mais difícil.

Para alguém que pretende dar os primeiros passos na gaita, quais caminhos você indica?

Dedicação. Os primeiros passos são os mais difíceis. Sempre priorize ter um professor logo no início. Muita gente começa sozinho e quando chega pra ter aula pela primeira vez acaba tendo o dobro de trabalho: Desaprender o errado + Aprender o certo. É mais fácil estudar sozinho depois de ter uma base sólida.

Em seu canal no Youtube você compartilha informações, reviews, aulas e dicas sobre o mundo da gaita. Como surgiu a ideia do canal?

Acho que sempre amei falar sobre esse instrumento e são poucas pessoas que entendem do assunto. Eu tive a oportunidade de aprender inglês cedo e até hoje usufruo de material estrangeiro online, mas até bem pouco tempo era muito escasso qualquer coisa de qualidade que falasse sobre gaita. Mas cada vez mais tem gente boa falando sobre o assunto no youtube. Hoje em dia tenho algumas parcerias. Dark Side Studio e Matheus Brandão estão comigo na captação de uma série muito legal de vídeos que estou preparando. E a Easttop Harmonicas, que é uma gaita que adoro e uso bastante também está me dando um apoio e estou testando suas gaitas e ajudando a divulgar esse instrumento que eu adorei descobrir. Embora eu não trabalhe para ninguém (não sou endorser exclusivo ou trabalho para produtora), se vejo algo que acho legal e que vai ser útil para as pessoas eu divulgo com o maior prazer.

Você pretende lançar algum trabalho solo? Qual a previsão?

Sim! Ainda esse ano quero gravar 3 músicas inéditas. Ainda não decidi se vou focar no blues cantado com gaita que já faço ou em instrumental. Tem material acumulado pra soltar muita coisa. Mas até o final do ano sai ao menos o primeiro single eu voltarei a tocar mais. É algo que já estava sentindo falta.

Além do Expo Harmônicas, quais outros shows e eventos você destaca em sua carreira?

Acho que o primeiro divisor de águas pra mim foi em 2008, quando fui banda base com a Sinestesia no Festival de Jazz & Blues de Guaramiranga. Na época eu tocava guitarra e gaita a banda e por um imprevisto fiquei sem a guitarra e tive que tocar o show todo na gaita, inclusive dividindo no palco com grandes nomes. Lá eu vi que dava pra eu focar em um instrumento só (a gaita), só que eu tinha que estudar MUITO pra fazer isso dar certo. Foi o que eu fiz.
Em 2011, com a Bluzzeria no Festival Blues do Nordeste acho que pude apresentar um pouco o resultado disso. Ali foi um ponto de amadurecimento importante pra mim.

2016 foi um ano incrível em que desenvolvi um trabalho que tenho muito carinho com a Velhos Abutres e participar dos arranjos daquelas composições pra mim foi um processo muito massa. Nesse mesmo ano estreei como artista solo, fazendo o Show André Reis & The Gamblers no Fórum Harmonicas Brasil. Nele foi a primeira vez que dirigi totalmente uma banda para assim poder mostrar a gaita e tudo que ela podia fazer com um arranjo pensado pra isso. É um projeto que pretendo retomar eventualmente.

Foram muitos aprendizados e espero que venham muitos outros. Sempre que me desafiei a tentar tocar com caras que são meus ídolos eu evoluí. Se não saiu como eu queria, voltei para casa louco pra estudar. Temos um meio muito rico no Brasil de gaitistas e pessoas inspiradoras que eu hoje tenho sorte de poder trocar ideia e tirar dúvidas. Acho que esse meu ritmo louco de estudo não vai diminuir com esses novos estímulos.

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