Alpendre poesia

Dois poemas de Clarissa Macedo

Noturno n. 4

À noite,
No descanso das injustiças e das fraquezas,
Eles decretam no palácio a tua próxima fome.

Quando amanhece, o sol não nos fala
Nele, uma cortina de 100 dólares ponta de estoque

Em nós, o medo e o mito do silêncio.

Bronze o dia as aflições pelo trabalho e pelo sono

E quando enfim madruga e a jornada de tantas horas parece que chega ao fim
Eles dizem que haverá mais

Que haverá mais porque é preciso cansaço para os nossos olhos
É preciso sangue
Para que não se possa meditar

Para que sigamos
Máquina aos moinhos
A moer tudo aquilo que somos, tudo aquilo que não podemos ser.

***

Lampejo

quando navego nos itens do supermercado

no afago de suas prateleiras

sinto como se a guerra fosse aqui

aquela grande guerra esperada pelos povos

onde cada um monta sua torre e arma aos inocentes

onde deus salvará os bons da escória

onde o bom sou eu e o mau, o outro –

esse monstro que deveríamos amar mas não podemos

; e não o fazemos em nome do pó das armas que nos protegem da mão do filho –

do filho do outro a nos pedir comida com os olhos

                        de água.

meu deus, por que não me abandonaste no ventre à míngua da mãe

que morreu de parto na última ceia?

(mulher que abortou 20 eus abençoados pelo livramento do existido

e que não teve pai, mas um falo numerado)

deus salve a américa

deus me salve de mim olhando o preço da azeitona

meu último luxo interior que não poderei levar desta vez

me prometendo levar da próxima se o açúcar baixar

mas ele não baixa, não é? ele não morre, ele é duro.

preciso mesmo reduzir o peso, diz a revista, a publicidade…

eu e minha voz interior nos dirigimos à fila

nos despedimos do sonho de comer

aquelas coisas que a última classe não deixa

e pagamos com 200 reais os cinco itens necessários à manutenção da existência na fábrica.

…meu sonho acaba…

como se não tivesse nascido

como se jamais eu houvesse pisado os pés no éden e na terra

***

.

Clarissa Macedo (Salvador – BA), doutora em Literatura e Cultura, é escritora, revisora, professora e pesquisadora. Apresenta-se em eventos pelo Brasil e exterior. Integra coletâneas, revistas, blogs e sites. Publicou a plaquete O trem vermelho que partiu das cinzas (Pedra Palavra, 2014) e o livro Na pata do cavalo há sete abismos (Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia, 2014; em 2ª edição pela Penalux, 2017; e traduzido ao espanhol por Verónica Aranda, editorial Polibea, 2017). Integrou, em 2018, o Circuito de Escritores pelo Arte da Palavra, promovido pelo SESC. Lançará este ano o livro O nome do mapa e outros mitos de um tempo chamado aflição (poesia). Contato: clarissamonforte@gmail.com / clarissammacedo.blogspot.com

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