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À procura da rima perfeita, de Ana Cecília

Ela estava sentada ao meu lado no ônibus. Era uma moça de cabelos cacheados, olhos azuis e ar de sonhadora. Ela tinha um bloquinho e uma caneta em mãos onde rabiscava algumas rimas. Ela abraçava o papel a todo instante, parecia inquieta, como se buscasse o verso perfeito para seu poema que se chamava “Cotidiano”. Movida pela curiosidade consegui dar uma espiada em seu primeiro verso.

“Ônibus lotado de vidas vazias…”.

Ela parou um tempo, olhou pela janela e buscou inspiração para o próximo verso. Foi nesse momento que um rapaz entrou no ônibus e proferiu o conhecido discurso: “Eu poderia estar matando ou roubando, mas como não quero o que é dos outros venho aqui pedir a ajuda de vocês…”
A moça de cabelos cacheados pareceu ter um lampejo de inspiração e logo mudou o título de seu futuro poema para “Mendicância”. O primeiro verso permaneceu intacto, ela parecia se orgulhar do paradoxo entre lotado e vazio. Então prosseguiu:

“Ônibus lotado de vidas vazias
Ele ajoelha e implora o pão de cada dia
Parecia ter uma vida tão vazia quanto aqueles que estavam ali…”

O rapaz se foi. Ela esboçou um sorriso, como se lembrasse de algo que logo escreveu em seu caderninho. Ela percebeu então meu estranho interesse pelo que ela escrevia e tratou logo de esconder seus versos. Eu disfarcei, olhei para o outro lado e fingi que não era comigo, embora minha vontade fosse de dizer: – Moça, não precisa ter vergonha, estou adorando te ler!
Eu não disse. Eu ia descer na próxima parada. Eu fui embora e ela ficou lá à procura de sua rima perfeita.

***

O destino a fez jornalista, afinal a única coisa que sabe fazer bem é contar estórias. Ela podia estar fazendo terapia para se tornar uma pessoa melhor, mas escolheu o jornalismo como divã para lidar com as aventuras e desventuras da vida. Ana Cecília (Maceió-AL) também é mestranda em Antropologia Social e tem interesse pelo estudo das dinâmicas urbanas e seus significados.

1 comentário em “À procura da rima perfeita, de Ana Cecília

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