Alpendre poesia

A morte da esperança e Coisas que me dão medo, de Sammia Gonçalves

A MORTE DA ESPERANÇA


Enterrei a esperança
Na palmeira do meu jardim
Um verde sem vida
Uma carcaça comprimida
Numa vida que cresce assim:
Verde, folha, terra e capim.
Enterrei a esperança
Numa manhã de sexta feira
Sol fraco, céu cinza
Jazigo eterno da caqueira
Com uma colher cavei sua cova
Duas palavras de santificação
São Francisco, receba essa alma
Que habitava o corpo vazio
Agora seco em minha mão.
A sorte morreu na esquina da minha casa
Uma esperança sem vida
Outra com a vida machucada
Francisco amava os animais
Mas bicho pequeno a gente não vê
Anda com pressa pela terra
E com a pata pesada, atrupela
Um ser que humildemente presa
Pelo direito de viver.
Pois então, vai timbora bicho livre
Que o esplendor é teu lugar
Com asas de folha voa da terra
E pede a Francisco pra me guiar.

.

COISAS QUE ME DÃO MEDO:


Silêncio
Escuro
Silêncio no escuro
Silêncio das vozes da minha cabeça
Da palavra, que cansada, anoiteça
E esqueça de ecoar
Pois se não ecoa, não canta
Se não canta, não dança
Se não dança, não bate palmas
Nem tambor,
Nem maraca,
Nem pandeiro.
Sinto medo do escuro dos olhos fechados
Para o horror instaurado (leia-se: arquitetado) no mundo.
Célula cancerígena encrostada num corpo biônico
Sem músculo involuntário que pulsa sangue.
Sinto medo do silêncio das vozes
Das armas de guerra
Do bramir da fera
Dos domadores de bichos
Dos viciados em vícios
Dos dublês de patrícios
E da resposta da terra
Sinto medo da polícia
Do exército
Da repressão
Sinto medo por mim
Pelo meu amor
Pelo cu do cão
Sinto medo do vão
De artes
De ciência
De literatura
Da falta de comida
E da palavra de cura
Sinto medo da ferida que não sutura
Dos fantasma que não encontrou abrigo
Sinto medo dos dentes do meu inimigo
Mas sinto mesmo principalmente
Do indivíduo que se curva.

***

Sammia Gonçalves, 25 invernos acumulados, Santo Antão da Mata – PE. Canceriana da gema, romanesca orgulhosa e assumida. Transcreve a lápis e em papel kraft o que seus olhos, duas câmeras filmadoras, registram. Mãe do corredor e contador de estórias, Otávio Jandre. Estudante de teatro, atriz de teatro e cinema, Sapiência no Círculo Mágico da Cabriola, ex-futura geógrafa, colaboradora no Canal Tapacurá, cantora das músicas dos outros na performática banda de uma apresentação só “Lero Ramoz, Etzudas, Testemunhas de Jah, Cego da feira e Maestro Denis.” Neta do rei Gongué do Congo, da dinastia dos Gongués.

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