Alpendre poesia

dealer e última garrafa que lançamos ao cosmo, de Ricardo Escudeiro

dealer

“Strumming my pain with his fingers”
(In: “The score”, Fugees, 1996)

no ponto de ônibus bem de frente com a entrada
da viela
o motorista do ônibus aproveita o farol vermelho
pra cuidar
do desembarque da cônjuge e do filho
ajuda ela a ajeitar
uma mochilinha infantil nas costas
e a criança no braço
e
aproveita pra colocar na mochilinha
sem que ela veja
uns cuidados umas juras
que ela vai ver quando chegar em casa
aqui de longe é o que parece ao menos
aqui de longe
aqui do banco atrás da catraca
é o que o gesto que os dois trocam
quase todos os dias em que conseguimos
o ônibus desse horário
o gesto é esse da troca de afago no rosto um do outro
sem fala sem beijo sem nada

a mão de um em concha na bochecha do outro
e vice versa
aqui desse longe
é o que esse gesto nos passa

.

última garrafa que lançamos ao cosmo

“I’ll be fine
I’ll be waiting patiently”
(Depeche Mode, In: “Aquaman OST”)

com Fabíola Buttarello Rhein

lembra quando ousáramos pensar o tempo
enquanto lugar enquanto vazio lembra
quando sabíamos o que aquilo nos reservava mas como é que poderíamos
nas mensagens codificadas ao que não percebemos
encubar os horrores e as calmarias não se sabe qual
é o que vem primeiro qual
o tanto de caracteres necessários
decerto mesmo que uns amores acontecem no entremeio

não importa o teor ou a índole das escuridões
toda essa luz de agora que consumimos
de coisas celestes
toda essa luz vem do passado e só podemos chamar
típicos
os lugares que se assemelhem
ao vácuo

o ponto euxino lá do alto
que é que é isso
euxino

não
eh que às vezes usamos certo nome só por acharmos bonito
o som preenchendo um tempo
é pungente e é raro e é belo
a sonoridade que propicia
um píer que só entregasse partidas
a solidão extrema a solidão em um ápice
vida
cercada de água por todas as possibilidades
enquanto
o céu contava pra gente uma noite
que muito parecia uma mentira

***

Ricardo Escudeiro (Santo André-SP, 1984) é (ex) metalúrgico e (ex) professor. Autor dos livros de poemas “rachar átomos e depois” (Editora Patuá, 2016) e “tempo espaço re tratos” (Editora Patuá, 2014). Graduado em Letras na USP, desenvolve (ou não) projeto de mestrado com interesse em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa e Estudos de Gênero. Atua como editor na Fractal e assistente editorial na Patuá. Idealizou e montou, em parceira com o artista Leonardo Mathias, o work in progress “A mecânica do livro no espaço”. Possui publicações em mídias digitais e impressas: Escamandro, Germina, Jornal RelevO, Revista 7faces, Mallarmargens, Flanzine (Portugal), Enfermaria 6 (Portugal), Tlön (Portugal), LiteraturaBR, Diversos Afins, Ruído Manifesto, Poesia Avulsa, entre outras. Traduziu poemas da poeta afro americana Nayyirah Waheed, que foram publicados pelo selo gueto editorial, da Revista Gueto, em 2017. Publicou mensalmente, entre 2014-2016, poemas na Revista Soletras, de Moçambique. Participou das antologias “Os pastéis de nata ali não valem uma beata – antologia de 2017” (Enfermaria 6, 2018), “29 de abril: o verso da violência” (Editora Patuá, 2015), “Patuscada: antologia inaugural” (Editora Patuá, 2016), “Golpe: antologia-manifesto” (Punks Pôneis, 2016) e “Poemas para ler nas ocupa” (Editora Estranhos Atratores, 2016).

1 comentário em “dealer e última garrafa que lançamos ao cosmo, de Ricardo Escudeiro

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