Alpendre poesia

hoje / professorodisseia e Jabbath, de Joaquim Bührer

hoje / professorodisseia

acordei com pressa às 4:35 da manhã, comi bisnaguinhas minhas

requeijão & apresuntado

café do metrô, atravessando a cidade, vocês já sabem dessa parte e etc

seis aulas entre provas e idas :: alunos respondendo perguntas ao som de “Avengers Assemble” na caixinha do celular, literalmente, vibranium de emoção

Quanto poder mas quanta desgraça mas quanta sorte mas quando azar mas quanta possibilidade nas mãos

fui elogiado & desrespeitado (duas vezes e meia cada!!! Só hj!!)

comecei amigo, virei inimigo, depois voltei a ser amigo, não sei como fui embora

olhei nos olhos de todos os alunos

vi repetirem minhas frases nas provas, uma mãe elogiou meu bigode, um pai falou de mim

hoje eu também fui assunto

Amanhã serei mais em algum momento

outro dia, lembrado com raiva assistindo o jornal

talvez saudoso pelas turmas de antes

quem sabe amanhã sou tema de discussão no jantar

(nunca se viu profissão tão desimportantemente lembrada)

tem um espectro rondando o Brasil, o espectro do professorado

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eu dou 37 aulas & 18 horas de plantão

na semana

(faça as contas)

planejo nos intervalos. repenso na prática. meu objetivo é inventar mas inspirar

& meu trabalho é defender a geografia enquanto ensino crianças a mudar o mundo por entendê-lo

uma jornada comum de trabalho diária me dura 12 horas, média de 7h30 por noite de sono contando os finais de semana

carteira assinada, amo o que faço

tem a pesquisa de mestrado – isso não é um poema – ok

não estou tão cansado quanto pareço, o que me dói é o medo de perder a língua

ouço tantos colegas choramingando que cogito chamá-los companheiros

espectro, dizia, eu sei, não reclamarei

afinal

– nada temos a perder, se não as chaves das correntes e cadeados do mundo –

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acabei de animar uma pessoa com todas as forças que tenho a prestar geografia – ela chegou perguntando durante minha watch no plantão

“Como é o mercado do curso?”

– denso, complicado, injusto – mas respondi a verdade :: teria bastante emprego

teria, talvez tenha ainda, mas por enquanto.. teria

*Só trato das coisas no campo da possibilidade*

“A geografia é um instrumento de guerra, uma ferramenta de localização – tudo que aprendi sobre olhar para o mundo interpretando-o e fazendo de mim com ele e fazendo muito de tudo foi nas experiências a partir da geografia. Feita na FFLCH, ou quase sempre extrafflch, em casa, na vida, com mãe e pai. Geografia é viver. Mas o mercado é quente na guerra”.

– guerra? e para pesquisa?

Olha, eu sou pesquisador.

– uhum

Mas tem que melhorar – a geografia é a prova disso. Mais do que nunca ela é necessária. Indiquei o Xadrez Verbal e avisei: mas…. CUIDADO COM O MUNDO!!

* E com as três horas de podcast *

– tem no Spotify?

*Às vezes eu sou um professor meio dramático*

Depois que você descobre como ele (o mundão) funciona, não consegue mais parar de produzi-lo a partir da sua realidade. É o cabo de guerra que a geografia registra. A gente só interpreta. Atua de vez em quando.

– mas como é o curso?

É poderoso. Você aprende do chato ao legal, se apaixona por agrária, por urbana, por geomorfo, cai de ódio por hidro mas adora hidro, geopolítica te deixa de orelha em pé com a própria geopolítica, tem aquele Marx te dando Oi, é muito erudito e muito local e muito muito poderoso. Já disse isso? Saber sobre o mundo é perigoso. Toma esse livro aqui – indiquei –

“A geografia serve em primeiro lugar para fazer a guerra” * Yves Lacoste *

Sussurro (você vai achar o PDF por aí)

Sussurro (okk)

– a geografia come pelas beiradas, ou você pisa nela –

É assim que começo todas as minhas primeiras vezes em turmas novas:

“ Oi. Meu nome é Joaquim. Pausa Muito Dramática. E.. se eu contar que a geografia não serve só para conhecer tudo (já que tudo nunca é suficiente)……

…. Mas que serve mesmo para fazer a guerra?

(aqui o “mesmo” vem em negrito em textos editados e com ênfase na vida real)

As caras de surpresa são as melhores.

– se o povo produz toda geografia, então toda geografia pertence ao povo – diz o espectro sobre mim antes que tenha de parar

***

Jabbath

nas ondas do tempo direção centro já perto do metrô

Um homem, seu cobertor e uma sacola passa e

outro entrega folhetos das melhores óticas gassi da cidade –

Ninguém pega, aviãozinho, ninguém liga

as contas vencem, o ser humano perde

uma mulher tropeça e sua calça cai uma mulher tropeça porque alguém quis que fosse e

Já são 22:34 de terça e comprar um salgado custa quase cinco reais e eu não queria comer tanto carboidrato

ou

São 6:57 e no Tatuapé habitam pessoas as das estatísticas proibidas de vender no metrô e compro por uma questão mais financeira que política

Mas

tem dois sujeitos ainda entregando folhetos gassi com coletes gassi nas melhores ruas de SP

Escuto

e verbos de passar roupa me espreitam, como, como eu sei, é que

ali começa um papo furado de que preciso empreender, que preciso investir, que vai dar tempo, que todos os dias os alunos da FMU na linha azul cursam educação física sonhando trabalhar em um grande clube, e que nas quintas de manhã luto para poder sentar na direção Corinthians da cidade

Mas meus colegas trabalham em pelo menos três ou quatro lugares mais de 12h/dia

dão aulas, levam e trazem, medem litros de conhecimento e levantam peso

enquanto

Um homem barbado no fundo do trem abre uma revista em quadrinhos e ostenta uma camisa do justiceiro desbloqueando o celular

Eu não devia olhar, mas tem uma bandeira do Brasil e sabemos o que isso significa hoje

Do lado de dentro do mundo é o único onde as lixeiras se enchem de folhetos das lojas gassi enquanto desmatamos árvores na fronteira agrícola

O deserto amazônico se forma

O porteiro anuncia a chegada da sexta básica

Um litro de leite, família, 5kg de arroz, não verás país algum mas

Alguém pede para descer no próximo ponto

Um aluno me diz que sou melhor que o professor demitido porque não me posiciono politicamente em sala

Tenho medo de falar sobre experiências idílicas com drogas em poemas públicos

Ainda sei sobre as massas de ar que influenciam o clima brasileiro na mesma medida que sei a variação da taxa selic

Tudo que eu queria era começar e terminar alguma série

só que pego o folheto gassi e pelo menos o transformo em um aviãozinho todas as vezes

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na sala de estar do consultório da vida

Pego uma guia e abro minha boca e Babo março inteiro esperando abril a porta e o doutor me chamar

– tem algo aí nos seus dentes

Esses meus sonhos ficando banguela esse meu ranger diário, doutor

– não tenho doutorado, abre bem grandão

Ele avalia

– Seus dentes ainda são humanos

Perfeito, agora

sei que meus problemas são apenas locais e individuais.

***

Joaquim/Tim Bührer (nascido em 1993 em Itapeva SP, morando desde 2012 na capital paulista). Poeta. Professor de geografia, pesquisador FFLCH/USP em geografia humana & urbana. Músico na @ciaasos, poetinha publicado em: mallamargens, novos poetas, originais reprovados, carnavalhame, sob a pele da língua, comoeuescrevo, literaturaefechadura, etc. Romancista de tumblr (seasickpoetry.tumblr.com), antidadaísta, sarauzista (Sarau Comunitário Itapeva) e agitador (@joatimbc). Autor do triângulo, Editora Urutau, que pode ser adquirido com o autor ou no link http://editoraurutau.com.br/titulo/triangulo

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