Ensaio

ENSAIO – “Só a árvore vive”: onde Zaratustra encontra Godot

Não posso continuar, vou continuar.
(Beckett. O Inominável)

E que se despedace tudo o que possa despedaçar-se de encontro às nossas verdades!
Ainda há muitas casas por construir.
(Nietzsche. Assim Falou Zaratustra)

De maneira geral, niilismo consiste na ausência de valores eternos, estruturas metafísicas estáveis, cláusulas pétreas garantidas por uma divindade ou por leis transcendentes. Ausência completa de sentido e fundamento. Caos. Nada a ser feito? Nietzsche-Zaratustra não tem alternativa: é preciso ter coragem e adentrar nesse ágon. O advento do além-do-homem (Übermensch) depende disso. É preciso adentrar o niilismo para que ele apareça em toda a sua plenitude e em todas as suas possibilidades. É preciso radicalizá-lo, levá-lo até sua extrema significação, dando-lhe minimamente um sentido positivo, que consiste precisamente na auto-superação e no surgimento do mundo enquanto tal. Todavia, esse sentido positivo que Nietzsche assume do niilismo não é utópico, idealizado ou acarreta num télos ou numa normatividade intrínseca ao mundo, mas está presente em dois elementos centrais.

O primeiro elemento consiste na noção de vontade de poder (Wille zur macht). Marton identifica pelo menos cinco ocorrências da vontade de poder no percurso da obra de Nietzsche: Em Humano, demasiado humano, Nietzsche “ainda não procurava um princípio fundamental e abordava, então, a vontade de potência por duas vias distintas: tomava-a enquanto sucesso mundano ou impulso psíquico” (MARTON. 2001, p. 123). Em Aurora, Nietzsche persiste “nessa segunda via”, acreditando “esclarecer, através, da potência e do medo, todos os fenômenos psíquicos”. Em Assim falou Zaratustra, a vontade de poder surge “como a força em que repousariam todas as atividades do homem”, de modo que ela se converte “na força fundadora de todo o universo”. Vontade de poder é, pois, idêntico à vida (MACHADO. 1997, p.73).

Ainda podemos observar a ocorrência desse conceito em dois fragmentos póstumos da primavera de 1888. O primeiro é 14 [121], no qual Nietzsche afirma: “Toda força motora é vontade de potência, não existe fora dela nenhuma força física, dinâmica ou psíquica”. O segundo é 14 [79]: “A vontade de potência, não um ser, não um vir-a-ser, mas um pathos, é o fato mais elementar, do qual resulta um vir-a-ser, um efetivar-se” (MARTON. 2001, pp. 123-124 e 129). Vontade de poder implica e exige a intensificação do poder, isto é, o tornar-se mais forte, crescer e expandir-se. Essa noção implica em afirmar que a vida tem uma aspiração (não um télos) fortuita: um sentimento máximo de potência. O querer-ser-mais-forte “constitui a única realidade – não a conservação de si mesmo, mas querer se apropriar, tornar-se senhor de alguma coisa” (KLOSSOWSKI. 2000, p. 134).

O segundo elemento consiste precisamente no próprio niilismo radicalizado. Afirma Nietzsche: “Não há lei alguma: cada potência tira, a cada momento, sua última conclusão” (apud KLOSSOWSKI. 2000, p. 130). Para Araldi, desde Humano, demasiado humano, o esforço de Nietzsche de “atingir o pensamento da suprema afirmação e da existência”, passa a receber um caráter intensificador: o niilismo é experimentado “na forma de um ceticismo extremado” (ARALDI. 2004, pp. 44-45). Nada a ser feito?

E Zaratustra assim falou ao povo: “Eu vos ensino o super-homem. O homem é algo que deve ser superado. Que fizeste para superá-lo? Todos os seres, até agora, criaram algo acima de si mesmos; e vós quereis ser a baixa-mar dessa grande maré cheia e retroceder ao animal, em vez de superar o homem? (NIETZSCHE. 1994, p. 29)

O que é essa maré cheia que anuncia Zaratustra senão a capacidade de todo ser de ultrapassar-se?  Esgotados, Vladimir e Estragon, personagens de Esperando Godot, parecem não ter alternativa: é preciso esperar. Mas Godot não virá! A chegada de Godot implicaria, sem dúvida, um grande acontecimento. Afirma Vladimir: “Amanhã nos enforcaremos. (pausa) A não ser que venha Godot”. A pergunta de Estragon é crucial: “E se vier?”. A resposta de Vladimir não deixa de soar curiosa: “Estaremos salvos”. No entanto, um garoto havia-lhes advertido: “ele não virá, senhor”. Estragon reagiu com violência contra essa advertência: “Diga-nos a verdade!”. “Mas é a verdade, senhor”, afirma o garoto trêmulo e assustado.

Vede, eu vos ensino o super-homem! O super-homem é o sentido da terra. Fazei a vossa vontade dizer: ‘que o super-homem seja o sentido da terra’. Eu vos rogo, meus irmãos, permanecei fiéis à terra e não acrediteis no que vos falam de esperanças ultraterrenas! (NIETZSCHE. 1994, p. 30)

Godot virá? Diferentemente do santo, que prega a imperfeição do homem e a desgraça do mundo para que amemos Deus, Nietzsche-Zaratustra prega a superação do homem com a criação de algo além de si mesmo. O sentido da terra nada mais é do que é o além-do-homem, não Godot. No entanto, apesar de Beckett não afirmar o que significa propriamente a salvação de que fala laconicamente Vladimir, podemos concebê-lo como possibilidade de redenção. Como ousar afirmar em redenção em Beckett, se a frase de abertura de Esperando Godot é um desolador “nada a ser feito”?

Assim como o além-do-homem em Assim Falou Zaratustra, a espera em Esperando Godot é polissêmica. No entanto, parece muito óbvio afirmar que se trata de duas obras que se anulam mutuamente: Zaratustra é o devir e Godot o estático. Zaratustra é aquele que assume o niilismo ativo e Vladimir e Estragon o niilismo passivo. Zaratustra quer criar novos valores, dizer sim à vida. Godot não virá e impede que Vladimir e Estragon saiam da inércia: “Vamos!”. “Não podemos”. “Por que?” “Estamos esperando Godot”. “É verdade”. A repetição dessa tensão lacônica e ao mesmo tempo cômica entre ir e esperar é constante.

ESTRAGON. – Aonde iremos?
VLADIMIR. – Não muito longe.
ESTRAGON. – Não, não, vamos longe daqui!
VLADIMIR. – Não podemos.
ESTRAGON. – Por que?
VLADIMIR. – Temos que voltar amanhã.
ESTRAGON. – Para que?
VLADIMIR. – Para esperar ao Godot.
ESTRAGON. – É verdade. (Pausa) Não veio?
VLADIMIR. – Não.
ESTRAGON. – E agora já é tarde.
VLADIMIR. – Sim, é de noite.
ESTRAGON. – E se não nos déssemos conta? (Pausa) Se não fizéssemos conta?
VLADIMIR. – Castigar-nos-ia (Silêncio. Olha a árvore) Só a árvore vive.
ESTRAGON. – (Olhando a árvore) O que é?
VLADIMIR. – A árvore

Como num cicio do sentido da terra que fala Zaratustra, a árvore, nesse contexto de Esperando Godot, converte-se num símbolo terrível e serve ora como um espelho, revelando-lhes a sua condição (“só a árvore vive”), ora como possibilidade de proporcionar-lhes o suicídio. Serve ainda como uma espécie de referencial temporal, que, na verdade, não lhes ajuda em muita coisa.

(ESTRAGON olha a árvore)
ESTRAGON. – Não vejo nada.
VLADIMIR. – Pois a noite estava negro e esquelético. Hoje está coberta de folhas!
ESTRAGON. – De folhas?
VLADIMIR. – Em uma só noite!
ESTRAGON. – Deve ser primavera.
VLADIMIR. – Mas, em uma só noite!

“Desde Copérnico o homem parece ter caído em um plano inclinado – ele rola, cada vez mais veloz, para longe do centro – para onde? Rumo ao nada? O lancinante sentimento de seu nada?” (NIETZSCHE. 1998, pp. 142-143). Mesmo que não lhes proporcione um referencial no espaço, Vladimir e Estragon permanecem fiéis à terra, isto é, à árvore. São livres? Amor fati!, reivindica Nietzsche. Pathos do ser que deseja ser. Amor fati: os obstáculos constituem um estímulo e a luta é reivindicada. Há amor pelo ágon. Há amor pela superação de si. Nada: a ser feito.

REFERÊNCIAS:

ARALDI, C. L. Niilismo, criação, aniquilamento. Nietzsche e a filosofia dos extremos. São Paulo: Discurso Editorial, 2004.

BECKETT, S. Esperando Godot. Trad. br. Fábio de Souza Andrade. São Paulo: Cosac & Naify, 2005.

KLOSSOWSKI, P. Nietzsche e o círculo vicioso. Trad. br. Hortência S. Lencastre. Rio de Janeiro: Pazulin, 2000.

MACHADO, R. Zaratustra: tragédia nietzschiana. 2ª edição. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997.

MARTON, S. Extravagâncias: ensaios sobre a filosofia de Nietzsche. São Paulo: Discurso editorial e editora Unijuí, 2001.

NIETZSCHE, F. W. Assim falou Zaratustra. Um livro para todos e para ninguém. Trad. br. Mário da Silva. 7ª Edição. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil S.A., 1994.

__________. A genealogia da moral. São Paulo: Cia. das Letras, 1998.

Foto: Roger Pic. Copyright: Biblioteca Nacional da França

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Sousandré é poeta, músico, estudante de jornalismo & professor de filosofia. Não necessariamente nessa ordem. Tem poemas publicados em revistas & sites de poesia & literatura em geral.

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