Alpendre Conto

Sala-peito, de Ithalo Furtado

Do livro “Móveis empoeirados no peito”

Ontem servi o mesmo chá que te servia quando ainda éramos. Mas éramos. E isso fez o chá ir também. O que se sorve não é nada além de água quente expandindo a essência vazia de um saquinho de expectativas. Vãs expectativas. Você me olha, eu não tremo, e a realidade te afunda como se a saudade do caminhoneiro te vitimasse na estrada noturna. A culpa é uma assassina paciente, que beija o cano do revólver com fiel ternura antes do tiro. Eu só estou interessada no entretanto, no ainda, no quase fim. Sou casebre-mundo do peito, sou deserto-tudo. Quantas milhas te faltam para desistir de se encontrar no fundo da xícara? O projétil jamais voltará ao ventre. Nossos peitos sangram e você é o único que insiste no chá, enquanto me olha, já sem respiração, com as unhas cravadas no tapete ainda repleto de nós.

Vê? A nova simetria dos quadros da parede lateral à escada parece dizer tanto. Os copos trincados pelo silêncio de ontem me causam o mesmo impacto. Não vê como meu olhar para o nada dói? Exercita o invisível, repara no silêncio de quem ouve uma conversa. Esquece a conversa. Faz o mesmo com estes quadros. Esquece o que há na moldura, veja como são tortos, empoeirados, sozinhos. Depois, olha para mim. Não nos olhos ou na boca. Repara o pequeno sinal que tenho no ombro ou a descostura na borda do vestido. Esquece os olhos na falha da sobrancelha ou na unha pintada pelo meio. Quero que me olhe como quem desiste de colher a flor pelos maltratos do vento. Olha, cala e deixe os quadros como estão.

Então, espero que te vistas, espero que o rádio cale, que a porta sofra com as batidas de uma mãe à procura do filho. Era verão e a tempestade se fazia presente. Curioso saber que chovia apesar de tanto medo do toque. Olha para você, sereno, feroz, então me olha, me olha com a empáfia do mesmo sol que nos convida para sua dança solitária. Vê, nada mudou, era somente o homem – este absurdo – que insistia em negar o caos do mundo por não suportar o próprio caos.

Eu desisto, não vejo grandes problemas na admissão pública do fracasso. Desisto e ponto. Chego à saudade com uma enorme cicatriz. Mas ela grita, soberana. São nomes incomunicáveis, provavelmente das cidades que cruzei neste trem chamado angústia. Outro nome que me é caro, mas não careço. Não como as cidades invisíveis de Marco Polo, tampouco como alguém que pretende mapear o caminho da própria dor. Prefiro ser eu mesma a descoberta da minha. Dói muito menos.

Quantos somos os que embarcam no mundo sem medo? É vago o trem da coragem e há muitos sem voz na estação. O grito ecoado no último vagão chega sussurro ao maquinista sádico que atropela silêncios como quem constrói cidades sobre florestas e florestas sobre desertos. Eu quero o não e suas cruzes. Eu quero. O ainda e o ainda não. Também quero suas cruzes. Chego, limítrofe, ao te do eu te amo. Eu te. O que vem depois não nos pertence.

Terminei o jardim, a parte mais difícil da casa, pois foi lá que ficamos após. Eu devia voltar pra Coimbra, eu devia plantar um tanto a mais do que aniquilo, eu devia, sei que sim, mas não é fácil terminar o jardim e sair ilesa. Preciso de alguns dias. Pode ser aqui mesmo, no interior de mim.

As meias espalhadas pelo assoalho do peito não dizem nada. Tampouco as gavetas desertas de lembranças e os absurdos colecionados como troféus na estante da alma. Também não dizem nada os restos de silêncio que deixei na tua fotografia surda e sem foco. Há mofo em tudo – como há trens clandestinos levando refugiados para a Europa fascista. Os entulhos da última mudança não encontraram casa na terra baldia; que seja qualquer lá fora. Então, reviro gavetas, espano os armários e nada parece ganhar o brilho prometido. As aranhas tecem seus labirintos mágicos nos cantos negligenciados pelo excesso; olham em volta e condenam; o mofo toma conta dos móveis da infinita casa em ruínas.

Tem o ódio. Eu queria saber chegar no ódio, no estado de ódio, mas tem o mundo e todas essas coisas que nos sangram e parecem absolutas. Eu queria chegar no estado de mundo, onde tudo me cabe e não há ombro que não suporte o peso de todas as coisas. Tem o não e nele se esconde a surdez da dinamite. Eu quero a surdez, e quero. Chegar na ruína. Absoluta. Ruína. Tem a culpa e seus ensaios febris, apenas e tão somente. O estado de culpa é a própria febre que não encontra berço nos braços de qualquer oração; que seja a oração sem compromisso de um cão cheirando a calçada de um bar em Chernobyl. Eu quero a inocência do cão de um assassino confesso, que espera seu dono do lado de fora até que a saudade, sentinela dos dias, vire algoz e adormeça o coração do caminhoneiro adúltero. Eu quero o estado de sono que esmaga o cão em estado de amor.

Garanto que não calculo quando lanço ao mundo uma palavra. Garanto que não. Calculo cada doença terminal que nos contamina na antessala do abismo, do nosso próximo abismo. Garanto que não calculo o débito que deixei no bar onde ouvi pela primeira vez um deboche sobre Deus. Deus. Deus. Repetidas vezes, como foram repetidas as vezes que o procurei. No bar, em mim, no velhinho com câncer sorrindo para o passado no rosto indiferente da enfermeira minimalista que aponta caminhos. Eu sei, toda procura é uma forma violenta, desesperada, de redenção. Mas e se eu me perder enquanto busco? Julgo a plataforma pelo salto ou a floresta pelo excesso de nãos? Na dúvida, vendo os olhos e faço da intuição meu santuário. Ser um assassino frio ou um monge tibetano faz diferença para quem busca outro mundo dentro do próprio peito? O mofo chegou onde não devia. Mas entre todas as coisas da casa, sobrevive uma que não tem forma; é coisa que não se mostra, vive em mim, mas é parte de tudo – cômodo do quase, adereço do nunca; de repente, me pego espanando as fotos dos antepassados que vieram de Coimbra ainda jovens para colher um café que nunca tomam; ‘Tu não te moves de ti’ me olha da prateleira com cheiro de ontem e sinto a fragilidade dos dedos que já correram suas páginas; queira não – passe a vida, ignore o sonho, dói menos aos olhos de quem só tem o trabalho de dizer: ‘Ainda há pó nestes móveis’.

***

Escritor e compositor, piauiense, 34 anos, 3 livros publicados, semifinalista do maior festival de compositores do país – o FENAC – em 2018, idealizador da Coletânea Carnavalhame – que já vai pra sua quarta edição -, tem 2 cachorras e algumas plantas de patrimônio acumulado.

%d blogueiros gostam disto: