Entrevista lide liquido

Spell Your Gumbo: Uma entrevista com a Gumbo Blues

Formada por músicos experientes da cena blues cearense e com influências que vão de R. L. Burnside e Buddy Guy, passando por Jon Spencer Blues Explosion a Black Keys, a Gumbo Blues (Roberto Lessa, guitarra e vocal; Gabriel Yang, guitarra slide e vocal e Marcelo Holanda, bateria) resgata o blues em sua forma primitiva, adicionando peso e elementos modernos em uma formação com guitarras, guitarra slide e bateria, sem contar com a presença de um baixo. Depois de lançar os singles “Come Back Home”, “Catfish Blues”, “Black Mattie Blues”, “Spell Your Gumbo”, “The Sigh Of Relief” e “There Will Be Blood”, o trio se prepara para gravar e lançar mais cinco músicas e o clipe da música Come Back Home. Para saber um pouco mais sobre a formação, processo criativo e demais curiosidades sobre a Gumbo Blues, confira a entrevista com Roberto Lessa e Gabriel Yang:

Como e quando surgiu a ideia da formação da Gumbo Blues? Quem teve a iniciativa de começar a banda e a inspiração para a escolha do nome dela?

Gabriel Yang – Recebi o convite do Lessa para integrar uma GIG no interior, algo que seria inicialmente apenas uma GIG de rua pelo Festival Acordes do Amanhã, mas acabou sendo um show em um palco grande na praça central de São Gonçalo do Amarante, a GIG foi tão massa que a gente resolveu continuar com o esquema.

Roberto Lessa – A Gumbo surgiu por encomenda, por assim dizer. Fui convidado para montar um projeto para participar de um festival (Acordes do Amanhã). Inicialmente seria um esquema acústico de street blues. Chamei o Gabriel Yang para fazer uns slides e o Marcelo que tocaria caixa/washboard. Já estava tudo certo. Até nosso nome já tinha sido escolhido: Combo de Blues.
Acontece que o formato do show mudou e passou a ser formato elétrico e tocaríamos em palco com todo equipamento. Mas já vínhamos ensaiando e dando muito certo. Decidimos, mesmo com a mudança do formato do show, não mudarmos o formato da banda. Ficaríamos sem baixista. Só guitarra, slide e bateria.
Os ensaios deram tão certo que subimos no palco desse festival já com composições nossa e a certeza que iríamos continuar. Eu aproveitei a sonoridade e escrita de “combo” pra rebatizar de Gumbo, retirar o “de” e deixar o Blues: Gumbo Blues. E gumbo é um prato da culinária do sul dos EUA, do berço do blues. É um prato quente que reúne vários ingredientes diferentes, assim como é a Gumbo, cheia de ingredientes musicais muito além do blues.

O ensaio fotográfico da Gumbo Blues foi realizado em outubro de 2017 numa sucataria famosa de Fortaleza, no Chico da Sucata (Chico Alves). Como surgiu a ideia da locação e como foi o ensaio? Algum fato curioso sobre esse dia?

Foto: Chris Machado

Roberto Lessa – Nosso som é bem cru, muito inspirado no Mississippi Hill Coutry Blues e do que as bandas de rock produziram a partir desse tipo de blues. Então nada como um local que fosse a antítese do clean. E a sucata ainda casa bem com as guitarras feitas pelo Gabriel Yang a partir de materiais reciclados.

Gabriel Yang – Não lembro de quem foi, se foi minha ou do Lessa, mas essa sucata seria usada em um ensaio da minha antiga banda. Esse ensaio nunca aconteceu (creio que nas nossas conversas a gente tenha comentado isso). O Lessa então entrou em contato e marcamos. Engraçado que na hora não fomos autorizados a entrar, então fizemos tudo do lado de fora. Contamos também com a participação inusitada do Sansão, o cachorro de 3 patas de uma oficina de frente. Outro fato é que o sinalizador que o Chris (Chris Machado, fotógrafo) levou pra iluminar as fotos quase estourou na nossa cara. Tem foto desse momento!

Sobre influências vocês destacam nomes como R. L. Burnside, Hound Dog Taylor (que, assim como a Gumbo Blues, mantem uma formação sem baixo), Buddy Guy, Mississippi Fred McDowell e mesmo bandas como Jon Spencer Blues Explosion, The White Stripes e Black Keys. Tirando “Catfish Blues” e “Black Mattie Blues”, todos os demais singles são autorais. Como é o processo de composição das músicas? Há um compositor principal? E Quais são os principais temas das composições?

Gabriel Yang – Nas faixas já lançadas o Lessa teve esse papel, eu trabalhei mais na questão de arranjos, timbres e gravação. Mas nas que virão, essa participação tá 50% pra cada, já que musiquei algumas letras e também compus umas faixas, as vozes também terão maior divisão dessa vez.

Foto: Chris Machado

Roberto Lessa – Bem, não digo compositor principal, mas as composições da Gumbo lançadas são minhas. O processo dessas composições sempre é a partir de um riff de guitarra que se desenvolve ritmicamente e finalmente como estrutura de música. Em “Come Back Home” usei um curta nacional que é sobre um morto consciente no necrotério como inspiração. “Spell Your Gumbo” foram os clichês voodoo dos blues e em “The Sigh Of Relief” e “There Will Be Blood” já trato de questões mais críticas que será a linha dos próximos lançamento. Na primeira falei da violência de uma cidade tanto das ruas quanto do Estado; na outra fiz a crítica à volta às trevas promovidas pelas religiões.

No canal do Youtube da banda foi postada uma Homesession na qual o trio toca uma versão de Black Mattie Blues, de Sleepy John Estes. Nas apresentações vocês costumam tocar músicas de outras bandas? Quais outras músicas vocês destacam no repertório cover?

Roberto Lessa – Tocamos, sim. Principalmente blues tradicionais como “Where Did You Sleep Last Night”, “You Gotta Move”, “Rollin’ and Tumblin'”. Também tem espaço pra Robert Johnson, R.L. Burnside e outros. Tudo isso com arranjos pesados, pois o peso é uma de nossas características musicais.

Gabriel Yang – Nos shows nós sempre fazemos essas faixas que praticamente já estão agregadas no nosso repertório, mas costumamos dividir mais as vozes e trabalhamos alternando os vocais, então cada um canta metade do show. Na minha parte do repertório costumo sempre cantar faixas como “Rollin’ And Tumblin”, “Where Did You Sleep Last Night”, “John The Revelator”, “Crossroad Blues”, “Spoonful”, “You Gotta Move”, dentre outros clássicos que ficam perfeitos pra usar afinações abertas e Cigar Boxes Guitars.

Vocês lançaram em 2017 nas principais plataformas de streaming e sites de vendas de música digital seu primeiro single, “Come Back Home”, seguido de outros lançamentos como a versão do trio para o clássico “Catfish Blues” e “Spell Your Gumbo”. Quais são os próximos planos da banda? Serão lançados novos singles?

Gabriel Yang – Já estão em processo de pré-produção, aguardando só a nossa agenda sincronizar pra gente gravar. Tem um disco vindo aí.

Roberto Lessa – O primeiro passo é finalizar o clipe de “Come Back Home” e gravar e lançar mais cinco músicas que já estão sendo ensaiadas.

Nas comemorações de um ano de lançamento da primeira gravação da Gumbo Blues, o músico e produtor musical Gabriel Yang postou em seu canal do Youtube um video no qual recebe Roberto Lessa e ambos comentam acerca da concepção estética e o processo de gravação. Sobre o processo de produção dos primeiros singles do trio, como ele ocorreu? Como foi a escolha das músicas?

Roberto Lessa – Nós compomos quatro músicas e rearranjamos dois clássicos (Catfish Blues e Black Mattie Blues). Ensaiamos bastante essas músicas e gravamos todas elas ao vivo no home studio do Gabriel Yang. Após mixar e masterizar, fomos lançando as músicas single a single. O detalhe para “Black Mattie Blues” que está disponível para todo o mundo menos para o Brasil, pois a editora detentora dos direitos da música quis nos cobrar um valor muito alto para liberar a música para lançarmos e não pagamos a licença.

Gabriel Yang – A gente se afinou na ideia, fizemos uma pesquisa legal sobre todos os conceitos que a gente pretendia usar, desde sons até visual, mas tudo sem pressão. A gente se encontrava pra tomar uma cerveja e conversava, quando não, a gente conversava depois das aulas. Nesse tempo eu tava dando aulas de canto pro Lessa aqui em casa.

A estreia da Gumbo Blues ocorreu na edição de 2017 no Festival Acordes do Amanhã e, no mesmo ano, vocês acompanharam os músicos argentinos Xime Monzón e Mauro Bonamico no Festival Canoa Blues 2017. Quais outros eventos ou shows vocês podem destacar no histórico do trio? De maneira geral, quais vocês consideram que sejam as maiores dificuldades de uma banda de blues nos dias de hoje?

Roberto Lessa – Para ser bem sincero, esses foram nossos maiores palcos. Respondendo a outra pergunta, já, há poucos palcos atualmente que comportem bandas de blues, principalmente fazendo um som autoral. Mas é necessário buscar alternativas. Construir os próprios palcos.

Gabriel Yang – Posso citar uma coisa que andamos comentando com frequência nos últimos tempos. As pessoas daqui ainda enxergam o blues como aquela coisa pra ouvir na serra, como música de fundo enquanto toma vinho e come um fondue. Eu prefiro ver o blues, especificamente o nosso tipo de blues, como um som de libertação, som de pobre e de minoria, som pra dançar, pra balançar a bunda também (comparo com o funk e foda-se quem critica o estilo, basta a gente ver a letra de vários clássicos, o blues não é melhor que o funk e vice-versa, as festas nos juke joint são verdadeiros bailes). Eu vejo que as pessoas tem medo de dançar no blues, os donos de bar criaram um preconceito de que blues não tem público porque “não compete com o entretenimento de massa”. As pessoas aqui acabaram caindo nesse conceito que elitizou o estilo, que transformou o blues numa bossa gringa. Acho que temos que desmitificar essas coisas na cabeça do público e dos donos de bar, parar de aceitar certas definições e clichês. Como músicos, estudar mais pra ir mais fundo no que o blues é de verdade, deixar de considerar tudo blues, ter mais critérios pra afiar mais ainda o discurso e por fim, mergulhar na periferia e tentar acertar isso por lá, onde o blues pertence.

O que os integrantes da banda tem ouvido ultimamente? Podem indicar algum álbum, banda etc?

Gabriel Yang – Tom Waits, The Black Keys, Jack White, Larkin Poe, Gary Clark Jr, Kurt Vile, Fantastic Negrito, James Lag.

Roberto Lessa – Tenho Ouvido muito Kirk Fletcher para falar de um guitarrista de blues mais modernos mas bem ligado ao blues tradicional. Leo “Bud” Welch também é algo que estou ouvido muito e a Gumbo tem muito do som dele.

0 comentário em “Spell Your Gumbo: Uma entrevista com a Gumbo Blues

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: